Retorno à lógica


O PT está ciente de que a imagem do partido e do seu líder maior é hoje impulsionada por uma corrente emocional, bastante próxima das manifestações de messianismo, pelas quais o Brasil já pagou tributo elevadíssimo. De certa forma isso se deu com Collor de Mello tanto na campanha eleitoral, em que várias vezes foi beneficiado pela Globo, da qual é capitão donatário nas Alagoas, como nos primeiros atos de governo. A identificação com o lúmpem e o descamisado, a noção do super-herói que o marketing ia forjando (o atleta e o piloto de supersônico), criaram o clima que possibilitou o tal do único tiro para matar a inflação que foi o congelamento dos ativos bancários e que acabou dando em nada.
A pior das eclosões de messianismo, sem referir-se aquelas que cercaram o retorno de Getúlio Vargas em 1950, foi a de Jânio Quadros, ao contrário de Lula um vitorioso de eleições explorando identificação com os pobres (tostão contra o milhão, a vassoura que removeria a corrupção) e transformando seus bilhetes em verdadeiros éditos imperiais. Mas Lula é de outra extração de caráter ideológico-doutrinário e só agora, nesta campanha e até pela ânsia de conceder-lhe essa oportunidade, que o tom da sua pregação, para abrir o leque das alianças, ganhou esse caráter. Gerada a esperança, e num nível em que não havia o mínimo espaço para o raciocínio, resolveu a massa cinzenta do PT e da coligação retornar à lógica. Deu para percebê-lo no ''Bom Dia, Brasil'' com a exposição do seu coordenador e prefeito de Ribeirão Preto, o Pallochi.
O quadro brasileiro é complexo demais para as reduções singelas de slogans e teasers de campanha eleitoral, razão pela qual é prudente sair desse cipoal facilitário que foi gerado para proselitismo e evitar, logo após a vitória, quando se pensa em tomar licor para comemorá-la aguentar o remédio na base do sal amargo, redundância indispensável para acentuar o constrangimento produzido por um remédio não dissimulável pelo sabor.
Louve-se a atitude, ainda que tomada a tempo, dos quadros do PT para cortar essa atmosfera de anestesia e triunfalismo que aparenta levar ao Nirvana, mas que não nos tira certamente do Purgatório a que nos habituamos nos últimos tempos e do qual só sairemos à custa de penosos sacrifícios.
BIZARRICE O que está pior: a política ou o futebol paranaense. Pelo jeito há um empate em ambas as perspectivas.
AXIOMA Lula deu uma de ator brechtiano (a teoria do distanciamento) ao usar a expressão latina ''sine qua non'' como condição para resolver um tema de campanha. Voltou-se para o público e perguntou: ''gostaram da condição sine qua non?'' e acrescentou ser um avanço para quem dizia ''menas'' em 89.
GLOSA O fator Cassio Taniguchi é a última esperança para Alvaro Dias reverter as tendências eleitorais detectadas pelo Ibope. Na Grande Curitiba Requião tem 50 contra 37 e o receio do PMDB é visível nas ações contra o suposto uso da máquina, isso é funcionários municipais e assemelhados.
EPIGRAMA Quando importávamos marqueteiros a campanha era melhor: não dá para comparar o que se faz hoje com os trabalhos da GW. Assim mesmo Requião ganha também na tv de Alvaro: mais dinâmica, variedade, adesões.
VINHETA A rejeição de Alvaro era de 29 e subiu para 33, a de Requião era de 30 e caiu para 26. Esse é um indicador que os programas de tv clareiam mais do que qualquer outro referencial.
FOLCLORE Otimismo é o do Luiz Claudio Romanelli quando requianistas tomaram posse do prédio de Sílvio Name em que funcionava o comitê de Beto Richa: ''a mesma alegria de agora haverá quando chegarmos ao Palácio Iguaçu, para o qual já devíamos ter retornado há mais tempo''.
AFORÍSTICO A maior parte dos programas eleitorais deveria ser em preto e branco. A cor não dissimula o odor, embora torne a forma agradável.

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