LUIZ GERALDO MAZZA
As juras e os juros
Há terapias heróicas e que expõem o paciente ao risco da morte. Em nome da salvaguarda da moeda e do receio de uma retomada inflacionária de dois dígitos que poria a pique o maior feito do governo FHC os juros que já estavam na estratosfera foram ao espaço sideral.
O mercado aguardava, há bastante tempo, sinais de baixa dos juros, que têm as taxas mais elevadas do mundo, para que com isso se reduzisse o cenário tenso e se abrisse a perspectiva da tão propalada retomada da economia. Como somos um país compelido, por tradição, à sinistrose há quem veja nisso tudo algo bem parecido com o Apocalipse.
Pode se acusar o governo de tudo. O Lula, erradamente, vive a sugerir, e isso com uma visão conspiratória do processo, que por trás das oscilações cambiais há um maestro, do tipo Doutor Silvana, a reger essa orquestração. Não há como, ante essa alta dos juros, olhar a medida como de auxílio ao candidato Serra. Os agentes do mercado, boa parte deles já convertidos à maré lulista, viram tudo isso pela perspectiva imediatista que caracteriza o nosso empresário de um modo geral até pela impossibilidade de imaginar o médio e longo prazos. Aliás, Keynes dizia que a longo prazo estaremos todos mais ou menos mortos.
Tanto o comércio como a indústria, que a essa altura já não podem rever seus planos de compra e venda para o Natal, chiaram ruidosamente sob o argumento de que a escalada cambial continuará, posto que admitam ser possível refrear a demanda com essa pancada que tornará o crédito inoperável. Papai Noel vem aí em andrajos. Isso pelo menos na primeira visão do acontecimento, embora se possa admitir que o lado mais positivo da eleição seja o de deter parte dessa onda negativa pelo vulcão de esperanças que o processo desencadeou.
As juras do governo de baixar os juros persistem. ''Juro'', diz o governo. Se é que na ordem atual um juramento não começa com a palavra ''juros''.
BIZARRICE Eleições alimentam esperanças. Pessimistas, no entanto, acham que neste Natal só vão vender as lojas de R$ 1,99. Melhor isso do que não haver nem essa reserva nos bolsos dos consumidores.
AXIOMA Papai Noel só não vai emagrecer como um faquir porque come, ao menos, as renas bem gordinhas do seu trenó.
GLOSA Se não ganharem hoje, Atlético e Coritiba saem da faixa da classificação e começam, gradativamente, a entrar na do rebaixamento. Pessimismo militante.
EPIGRAMA Plataforma de governo, seja a de quem for, com o cenário que está por vir, lembra a quase submersa da Petrobras.
ECO Um dos fatores de desagregação material da orla é a construção de estradas com a remoção de restingas e entulhamento de manguezais. Alguns se promoveram com obras que acentuaram a destruição das praias, aqui e em Santa Catarina.
Outra violência: construção nas encostas e obras de engenharia discutíveis.
FOLCLORE A diferença de padrão entre os programas eleitorais do Paraná e os do Brasil é aterradora. Dá a impressão de confronto entre selvagem e civilizado. Desse jeito não há auto-estima que se sustente. Enquanto no futebol nossos times disputam em condições iguais, aí nossa criação é de várzea. Que falta fazem os adventícios que aqui trabalhavam. Pouco dinheiro ou pouco talento?
CROMO Se a conspiração meteorológica persistir, teremos ipês amarelos ainda em novembro. Sazonaram as jaboticabeiras, confundindo os passarinhos.
AFORÍSTICO Adesão ao lulismo pode ser contaminada pela rejeição também.
VINHETA Depois das alianças, dobradinha, como comida, virou pejorativa.
SCAPS Festejar pesquisa como vitória lembra em tudo polução noturna.





