Somos um povo que aceita a demagogia com a maior naturalidade e com unção. Quando houve a invasão da Pinhal Ralo, que se pretendia transformar na maior da América Latina e o que foi prejudicado pelo massacre de Eldorado de Carajás, essa oposição burra, selvagem, tentou sugerir que o fato de haver três mil famílias no local aquilo tinha maior força empregadora do que a Renault. O pior é que gente diplomada, que tem um mínimo de domínio sobre questões sociais, repete essa asnice, apropriada a comício de primatas.
Da mesma forma, o desprezo que se concede à experiência do governo com a ‘‘Vila Rural’’ voltada para os bóias-frias, segmento mais marginalizado de toda a fauna agrícola, contrapondo-se a ela a suposta eficácia política e de justiça das invasões e dos acampamentos prova, à saciedade, que esse raciocínio tortuoso decorre exatamente do padrão de política que praticamos e que foi irrigado, ao longo do tempo, pelo populismo, do qual em maior ou menor escala padece toda a galeria de políticos, de Lula a FHC, passando por Maluf, Ciro Gomes ou Brizola.
Quando Curitiba foi premiada por suas virtudes, algumas sabidamente virtuais, à véspera da Eco 92, o governo estadual estimulou manifestações do PMDB diante do Bourbon Hotel, sugerindo aos estrangeiros presentes que percorressem um itinerário turístico que passaria pela ocupação da Ferrovila. Ora, a selvageria dessa invasão, feita por gente ligada ao governo e com apoio da PM por omissão deliberada, tentava mostrar (vejam a desonestidade) a Curitiba oculta cheia de problemas sociais. Havia gente que acreditava sinceramente que o povo seria a favor do paralelismo idiota, como se as pessoas gostassem da pobreza ou de ser pobres, ainda mais quando seduzidos pela voragem consumista.
‘‘Povo gosta de luxo. Intelectual é que gosta da miséria’’. O carnavalesco Joãosinho Trinta parece ter ido além da semiologia, além do sensualismo, para ingressar até, ao menos como episteme (teoria do conhecimento), na filosofia política. Uma certa esquerda não entendeu ainda que o lúmpen, que Karl Marx abominava, não tem consciência política e que entre o discurso libertador dos partidos nanicos e um leitãozinho do Aníbal Khury a escolha é óbvia. Tal como agiu, juntamente com todos os descamisados, que o Lula acreditava seus, ao votar em Collor que tinha cara de mocinho, expressão distante do próprio rosto dos deserdados, mais próxima do líder petista.
Essa concessão orgânica, sistemática, ao populismo me obriga a lembrar de Munhoz da Rocha, um dos poucos estadistas paranaenses, que se horrorizava, por método, com formas primárias de cortejamento das massas. O mais grave é que, de um modo geral, as lideranças paranaenses, inclua-se aí de Requião a Álvaro Dias, de Lerner a Greca (Cássio Taniguchi é o mais sóbrio de todos), não resistem a esse impulso deletério que deseduca e sustenta a cultura patriarcalista, aquela que tem como utopia visceral a visão do Estado-Albergue, campanário da cesta básica e da negação da cidadania.
PONTE Não se sabe se é uma ponte ou uma pinguela que o prefeito de Londrina, Antonio Belinati, quer erigir nos contatos com Álvaro Dias, como o que terá amanhã em Curitiba. As coisas ficam assim meio ambíguas, como é do estilo do prefeito (vide aquela onda de conclamar o interior para invadir a Capital), e podem representar, a um só tempo, um esforço para mostrar ao ex-governador que a saída para ele é a senatoria em coligação com o PFL, ou para exibir, também, o seu descontentamento com o mau atendimento do Palácio Iguaçu.
Haja o que houver, leva a melhor porque no fim dirá que se sair a coligação ajudou a fazê-la e que se permanecer a resistência, ele pelo menos tentou.
BIZARRICE Quando Álvaro Dias apareceu na televisão (Globo regional) dizendo que jamais falou o que ficou o tempo todo dizendo aos repórteres políticos, um veterano jornalista suspirou: ‘‘Isso é ‘merchandising’ de óleo de peroba’’.
Para cara de pau não há substância mais eficaz.
SPRAYBorboleteia pela praça a incrível história de que um vivaldino teria patenteado marca e símbolos dos ‘‘Jogos Mundiais da Natureza’’. Algo tão absurdo que só Dona Chucruts da história em quadrinhos (uma das mais antigas do mundo) dos ‘‘sobrinhos do capitão’’ acreditaria. Ela era o símbolo da credulidade.- Irmãos Simões (Carlos e Íris) estavam acertando um esquema na CNT, para fazer um programa, e foram vetados por Zé Carlos Martinez. Outra emissora admitiu que abriria o seu canal por uns R$ 150 mil por mês.- Requião já tem em mãos a documentação sobre irregularidades nos ‘‘Jogos da Natureza’’ e vale-se de sua presença em Foz do Iguaçu para referí-las.- Lerner esteve em Foz do Iguaçu um dia antes de Brizola. O desencontro dele facilita o encontro do caudilho com Requião.- Repercussão sobre os gastos de Rafael Greca com propaganda foi de tal natureza que alguns trechos da documentação publicados pelo semanário ‘‘Impacto’’ e retirados do processo da 1ª Zona Eleitoral foram xerocados. Curiosidade: essa matéria, a de natureza eleitoral, corre em segredo de Justiça.- Ernesto Capozzi desistiu da vice do Banestado ao perceber que teria, na sequência, constrangimentos como aqueles que o fizeram padecer injustiças na CPI dos Precatórios.- Prefeitura de Curitiba, autorizada em orçamento a gastar até R$ 3 milhões em propaganda, queimou R$ 14,9 milhões no ano passado. O governo estadual cravou R$ 106 milhões. Haja manipulação.-

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