A verdade em questão


Em jogo de pôquer é impossível todos blefarem ao mesmo tempo. Da mesma forma é impossível que os dois os grupos de Requião e Alvaro Dias estejam, a um só tempo, incidindo na mentira quanto às gravações do pacto com o Coisa Ruim. Há, no entanto, um fator que aproxima os dois lados: o benefício que ambos tiveram com a encenação do ''Ferreirinha'', estelionato eleitoral maior de nossa história política. Assim os antecedentes indicariam que pela causa poderiam ir muito além da mentira, de que tanto se ocupou Hannah Arendt.
A mentira, mais do que a suposta aproximação com o tinhoso, é que poderia levar ao máximo estrago. E isso não vai ser fácil para a Justiça decidir. Ela costuma, seguindo os princípios gerais do Direito, quando há duas perícias em conflito, pleitear uma terceira como desempatadora. Ora os currículos entre um e outro perito são de tal forma distantes como o de colocar o Martinez, hoje aliado de Alvaro, que ajudou a derrotá-lo em 1990, diante de Mike Tysson numa luta de box em 12 rounds. O que não significa que o suburbano, o caturra, o da terra, não possa estar com a razão diante do cosmopolita da Unicamp.
E a escolha do perito desempatador se dará por morte súbita ou, mais adequadamente, nas penalidades máximas?
Há quem diga que o Batatinha perdeu as eleições de Requião menos por causa do Ferreirinha, o pistoleiro inventado, do que por haver mentido quanto às suas supostas qualificações acadêmicas, constantes do currículo e não verdadeiras.
Como se vê os dois lados, hoje em conflito, se merecem. Se empatassem na derrota seria Justiça divina para ninguém botar defeito. Nem o ''canhoto''.
BIZARRICE O chifre já foi tema de campanha eleitoral, mas tratava de outro tipo de fidelidade, a conjugal.
AXIOMA A paranóia antes era em cima da mensagem cifrada. Agora é da chifrada.
GLOSA Tanto Requião como Alvaro têm pendores proféticos. Requião afirmou que o Brasil está pior do que a Argentina, o que é um absurdo, mas que anteontem nas cotações do peso e do real aconteceu. Alvaro, de seu lado, disse que a herança de Lerner seria um inferno e pelo jeito é por aí que pode ganhar ou perder.
EPIGRAMA Maldade da oposição: Beto Richa vai ganhar um kartório. Como é kartista cuidará dos registros dos praticantes da modalidade.
FOLCLORE Nos anos 70 os delegados de polícia do Paraná fizeram greve na base da operação padrão. Por não fazerem prisões para averiguações o índice de violência caiu a zero. O silogismo é impositivo: sem polícia seria possível derrubar os indicadores de violência. Eu estava no jornal ''Correio de Notícias'' e com apoio do Milton Ivan fizemos publicar um conto do Valêncio Xavier sobre uma greve de ladrões que criou tantos problemas que instituições que os combatem passaram a reclamar por seu retorno às atividades. Realismo fantástico é também pedagógico em certos casos. Como agora na greve do IML que pode recriar o ''Incidente em Antares'', de Érico Veríssimo.
CROMO A sombra no rio assombra o poço encantado dos mortos, o silêncio tem até jeito de ladainha, de reza.
AFORÍSTICO Se a Justiça decidir que o laudo do Requião é o correto, o PMDB pode mostrar o tinhoso de calcinha apócrifa, daquelas do Wando?
VINHETA De tanto falar no diabo é capaz de secar a teta das vacas e lá se vão as promessas dos dois candidatos principais.
SCAPS Até aqui temos apenas uma amostra da Cloaca Máxima do segundo turno.
FILIGRANA Incrível a contenção dos candidatos: esqueceram da mãe do outro.
FILOLOGIA Democracia, como se vê, pode ser também o governo do Demo.

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