Deus, Demo e o pleito

Não dá para comparar a densidade intelectual de um Fernando Henrique com qualquer desses litigantes do governo estadual. Mas FHC quebrou a cara numa eleição para prefeito de São Paulo por excesso de vaidade intelectual ao afirmar que não acreditava em Deus. Quis fazer cena para o seu grupo acadêmico e cometeu um erro imperdoável num homem versado em antropologia e que precisa do voto do povo e que tenta ''posar'' de ateu. Agora estamos com essa história do Diabo a mexer com Requião: um perito em gravações assegura que tudo é fajuto, mas quem conhece o senador e o acompanha sabe que é dado a esse exercícios. Portanto a gravação pode ser criminosa, mas não a forma como o público a assimila. Esse tipo de raciocínio já ajudou Requião na fraude do Ferreirinha: havia uma cena, uma alegoria, um pistoleiro falso, todavia as referências feitas, ainda que fora de época, eram históricas e válidas quanto às técnicas de expulsão de posseiros da região.
O tempo dispensado para contestar a estória do ''tinhoso'' acaba mostrando em que nível baixíssimo se desenvolve a campanha eleitoral. Não bastasse o baixo astral populista das ofertas de leite gratuito e ainda mais de água e luz, temos que suportar esse desperdício de energia em torno de bobagens. Sócrates ensinou que a melhor forma de contestar é a da ironia, arma que usou para os sofistas, aliada à ''maiêutica'', um raciocínio dedutivo que levava as pessoas à verdade. Era a ''parturiação mental'', a forma de chegar ao entendimento.
O fato é que a eleição ficou como o diabo gosta: os candidatos entram num processo de entredevoramento e a essa altura se torna inútil invocá-lo ou tentar exorcizá-lo. Ele está firme dando risadinhas, tridente em punho, certo de que pelas mentiras e promessas, praticadas nesses dias por quase todos os candidatos, majoritários e proporcionais, muitos se habilitam a frequentar a sua sauna, depois do desencarne.
BIZARRICE Está aí: começou a Primavera e Beto Richa já está brotando. Tanto que está se dirigindo aos ''brotos'' do eleitorado numa redundância.
AXIOMA Primeiro foi o Bruno Lopes, ex-dirigente do Ibope regional, declarando que os indecisos são tantos que podem mudar o quadro eleitoral. Depois foi o presidente do Tribunal de Contas, Rafael Iatauro, ao admitir que o governo sai no mínimo com 25% dos votos. E ontem quem disse algo com o mesmo sentido foi o publicitário Ernani Buchmann. Parece orquestrado. Beto Richa pode não brotar, mas há especulações que o favorecem tanto quanto o Padre Roque.
GLOSA O pior seria alguém lançar água benta num candidato e ele sumir numa nuvem com cheiro de enxofre e de água Dorizzon.
EPIGRAMA Uma das maiores idiotices dessa campanha é essa pregação excludente de Beto Richa em cima dos jovens. Lembra outra, também idiota, do Affonsinho para presidente da República falando, como se fosse a Xuxa, com ''baixinhos''.
FOLCLORE Há todo o tipo de maluquice numa eleição. Existe quem deseje explorar a promoção do tinhoso com um trocadilho. Em lugar de ''Vade Retro, Satanaz'' o apelo ''Vá de Beto, Satanaz!'' T'esconjuro, coisa ruim.
CROMO Ângelo, meu neto mais novo, fazendo suas orações, em intimidades com Jesus, de mãos postas e balbuciando embaixo das cobertas ''vê lá, cara, se não vai me ajudar!''
AFORÍSTICO Pressões de grupos funcionais, militares ou civís, em véspera de eleição, são mais antiéticas do que promessas de candidatos.
VINHETA Alvaristas vão convocar um perito criminal do padrão Badan Palhares para reafirmar que a fala sobre o diabo é verdadeira. Para se saber da verdade urge convocar o próprio, o chifrudo, para testemunhar.
SCAPS Tudo que é candidato falando em Deus não dá pra suportar. Não enunciar ''seu santo nome em vão'' é uma velha advertência.

mockup