Absenteísmo legitimado


Entre os tabus institucionais do Brasil está o do voto obrigatório, algo que conflita essencialmente com a idéia de liberdade de opção. É mais do que se poderia chamar de contradição em termos por ser, como um filósofo diria, uma antinomia ontológica.
Com o eleitor, depois de todas as acrobacias mentais possíveis, incluindo a de apurar o ''menos pior'' da lista, que é o caso clássico da eleição estadual, tendo, ainda, que fazer uma nova opção entre horrores é de concluir-se que seria muito mais higiênico, mais decente, com economia processual inclusive, deixar de votar para não aporrinhar-se e ainda não submeter-se à insalubridade da escolha.
Se na eleição presidencial há alternativas aceitáveis, pelo menos uma dupla de postulantes, na do governo estadual a mesmice pastosa é de lascar. Chega a produzir sofrimento mesmo naqueles que, como eu, votam por hábito no ''menos ruim'' numa adaptação do pensamento de São Tomaz de Aquino do ''mal menor'', Mas quando todas as situações imagináveis configuram alguma forma de ''mal'', a intensidade do drama atormenta.
O caso clássico do Paraná, pelo menos na minha opinião pessoal e nem procuro com isso fazer proselitismo, justifica amplamente o absenteísmo como imperiosa necessidade institucional que países verdadeiramente democráticos e liberais
adotam como norma histórica. Infelizmente não temos esse direito e o reparamos com o voto nulo e branco, limite possível da indignação.
BIZARRICE Os candidatos ao governo estadual são de fato tão defasados que, ao tratarem de questões religiosas, não saem do Velho Testamento. O único que se vê obrigado a fazê-lo é o Padre Roque.
AXIOMA Requião acusou o golpe ao responder à encenação do PPB, aquela estória da sua disposição de negociar com o tinhoso. Parecia estar cutucado por um tridente do Satã. Invés de um ''xô, Satanás'' um show de constrangimento.
GLOSA Por falar em inferno é o que Alvaro Dias diz que vai encontrar como herança quando assumir o governo. Então por que sorri tanto? Ou aquilo é um riso nervoso ou o homem é um apaixonado compulsivo pelas dificuldades.
EPIGRAMA Talvez esteja aí o ajuste de Alvaro ao número 12. Afinal foram 12 os imensos trabalhos de Hércules e o roteiro do seu governo terá esse destino.
Enfrentar o Cérbero, o cão bicéfalo, e a Hidra de Lerna (nada com Lerner) é, de saída, menos complicado do que encarar o Requião.
FOLCLORE Na campanha Paulo Pimentel, em sua passagem pela Constituinte, é apontado como inimigo do trabalhador (votou contra a licença-maternidade, aviso prévio etc), ganhou nota baixa do DIAP. Para medir o critério dessa instituição, hoje mais amadurecida, basta lembrar que o Waldir Pugliesi e o Nelton Friedrich tiveram as notas máximas e não foram reeleitos. Mas também Pimentel não votou contra as aposentadorias.
CROMO O poema da pedra: ela no caminho, à moda de Drummond, no fundo do lago ou submersa no rio e tatuada de musgos, rígida, pétrea, só aparelhos que medem radioatividade lhe captam misteriosas pulsações.
AFORÍSTICO Lula finge não ouvir os ataques como se fosse um faquir dormindo o sono dos justos numa cama de pregos.
SCAPS Na eleição ao governo estadual, o PT é uma sublegenda do PMDB.
VINHETA Alvaro Dias e Rubens Bueno ainda disputam palanque do Ciro?
FILIGRANA Agora vem a onda do voto útil e do voto UTI, o do derrotado.
OPS Aliança com o capeta, afinal de contas, não é novidade.

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