Umberto Ecco escreveu um texto específico sobre comunicação social que já no título parece definir a essência do processo ‘‘Viagem à irrealidade do cotidiano’’. Quem leu, viu ou ouviu o que se falou sobre a greve postiça dos professores percebeu que o noticiário se baseava fundamentalmente naquilo que porta-vozes, às vezes pessoalmente, ora via ‘‘releases’’, colocavam como versões. Assim, o público oscilava entre os 5% de escolas paradas da área oficial, que parece mais próxima da realidade, com os 80% de professores de braços cruzados, conforme a APP-Sindicato.
Dá para imaginar a desinformação a que se chegará, caso tenhamos uma guerra civil no Brasil, se os veículos aceitarem, sem checar, os números e avanço e recuo de posições de um e outro lado. Basta ver o noticiário sobre a suposta saga dos sem-terra, olhada por um lado com empatia excessiva (não esquecer da contribuição da novela global ‘‘O Rei do Gado’’, que teve paralelo no caso da mobilização pelo impeachment de Collor na série ‘‘Anos Rebeldes’’, embora os arrogantes da UNE entendam que a obra foi exclusivamente deles) e de outro como se os excluídos fossem corsários e bandidos inqualificáveis.
O tal do delegado Bradock - aliás, com o nome de um personagem da ficção e que resolve tudo na porrada, interpretado em séries televisivas pelo Chuk Norris - quase provoca um tumulto em Querência do Norte ao gerar um cenário paranóico em que a delegacia estaria prestes a ser queimada pelos sem-terra. Como é que pode o setor de Segurança estar sujeito a coisas como essa ou Àquele atentado até hoje não esclarecido contra o titular da pasta?
A tragédia se aproxima da farsa, mais do que na frase repetida de Marx a respeito do rumo da história. O que há de anedótico e burlesco em nosso dia-a-dia dá a estranha impressão de que estamos incapacitados todos para viver a realidade com um mínimo de seriedade. Tanto os professores grevistas como os homens do governo acham que basta a versão conveniente. Assim também os sem-terra. A história não poderá ser escrita amanhã com base nos documentos da área de comunicação porque eles parecerão, cada vez mais, com aquilo que Cortázar, Vargas Llosa, Garcia Marquez empreendem com a literatura.
VINHETAA crise é tamanha, dizia o arquieto Sola, de Cambé, que até João-de-Barro está morando na casa da sogra.
ESCÂNDALOGastos da gestão Rafael Greca apareceram detalhadamente no jornal semanário ‘‘Impacto’’, em função de crime eleitoral ajuizado pela Coligação Nossos Caminhos: R$ 14,9 milhões em 95, e R$ 16,3 milhões em 96. Jornais de circulação restrita, que jamais resistiriam à mídia técnica, aparecem com faturamento de R$ 400 mil a mais de R$ 600 mil. Para que se tenha idéia do escândalo, basta lembrar que em gestões como a de Álvaro Dias e no governo estadual era inferior ao contabilizado nos dois exercícios municipais.
Aparecem, também, as agências de propaganda do peito, problema crônico em todas as gestões, como na atual do governo estadual, onde o parentesco e a afinidade parenteral pesam.
MAGDAHá quem ache que o Sérgio Motta fala demais. E é verdade. Só que há uma espécie de combinação entre ele e FHC. Aqui o Gerson Guelmann, normalmente prudente, às vezes se sai desastrosamente. Vejam a ‘‘pérola’’: falando à CBN, ontem, sobre a greve fajuta do magistério, disse que Lerner tem muito apreço aos mestres por tudo que fizeram em seu favor na campanha eleitoral.
BIZARRICEO professor Tupi Pinheiro, presidente do Atlético, enxergava muito mal. E confundia o goleiro Ivan Gonçalves Pereira com o zagueiro Coquemala. Num jogo em que o Atlético levou de 4 a 1 do Britânia, Tupi abraçou o Ivan e disse, consolando-o: ‘‘Coquemala, apesar de você se esforçar tanto, nós perdemos pelas falhas do Ivan’’. E este, sem irritar-se, ratificou:‘‘O senhor tem razão. O Ivan é um frangueiro.’’
SPRAYTrês intervenções, duas estaduais e uma federal, decretadas pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça: as de Paranaguá e Altônia têm origem em reclamações trabalhistas, e a federal é referente a uma desapropriação do DER.- Governo endividado, que não paga ninguém, despende uma fortuna com o folguedo dos ‘‘Jogos Mundiais da Natureza’’ sobre os quais há um dossiê com feitos olímpicos em matéria de notas fiscais ‘‘frias’’.- O Banestado, minado pelas molecagens da Leasing, já ‘‘queimou’’ R$ 1 milhão nesses Jogos, nos quais a maioria da população em Foz do Iguaçu não acredita.- Lerner teria autorizado a Leasing a fazer a operação com Sergipe, uma das mais estranhas em favor do ex-governador João Alves, com quem o governador teve tratativas profissionais como arquiteto em passado recente.- Transportadoras de Londrina tentam inutilmente receber o que haviam depositado na alícota do Finsocial do Setcepar, Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas, a que teriam direito via mandado de segurança que ganharam na justiça federal.-
FOLCLOREAdão Plínio da Silva, comentando um jogo de futebol entre Brasil e Uruguai, ao ser alertado para supostos efeitos até militares da partida: ‘‘Para o efetivo militar deles bastava a nossa fila do INPS.’’
CROMOJulieta brasileira não pode falar em rouxinol: a corruíra serve.
AFORÍSTICOA nova lei eleitoral é bem à brasileira: o autoritarismo e o continuísmo sem riscos a permeiam. Milicos eram menos debochados pelo menos neste caso: Armando Falcão é um radical democrata perto do que está aí.

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