Luiz Geraldo Mazza
Se alguém procurava um elemento psicossocial para fermentar a tensão no campo, ontem ele foi encontrado com a ação violenta contra o acampamento de sem-terra na fazenda Saudade, em Santa Isabel do Ivaí: encapuzados, dizendo-se da polícia, retiraram a força os acampados, queimaram tendas e feriram, ainda que levemente, duas pessoas. A primeira informação veio com todos os condimentos da emoção: os sem-terra estariam queimados, versão confirmada pelo hospital do município e depois retificada.
Invasões de terras no Brasil se dão no sistema do faz de conta, a que comparei a uma gincana, embora alguns arrogantes dirigentes posem como se fossem uma reencarnação de um Guevara. A não resistência e a protelação no cumprimento de despejos judiciais, já que os governos detestam o desgaste de passar por aliados dos latifundiários (parte das áreas invadidas se inclui no módulo médio e em alguns casos até no pequeno), dão a impressão de uma batalha ganha pelos invasores por desistência dos proprietários.
Essa ilusão é que anima o MST a estimular inclusive que desempregados das periferias façam parte da massa invasora. Isso ficou claro no caso da invasão da fazenda Pinhal Ralo, na qual os sem-terra não deixaram de obter uma vitória parcial, importantíssima. Do grupo inicial da invasão, que pretendia ser o maior da América Latina (e que contou na articulação em Curitiba com a presença de Luiz Ignácio Lula da Silva, pois aqui o governo cedera espaços para acampar participantes do movimento) e que se frustrou porque no dia seguinte houve a tragédia de Eldorado de Carajás, com o massacre de camponeses em luta, reduzindo-lhe o impacto, restou menos gente como sempre acontece.
Anteontem, surpreendidos pelas ações governamentais, que saíram da inércia, para o cumprimento de decisões judiciais (ontem houve outra, tranquila, em Palmas), alguns líderes do MST, em reunião na delegacia do Incra, prometeram resistência. Isso certamente com o objetivo de evitar a quebra da moral nas mais de 100 invasões existentes no Paraná e para as quais já existem 94 ordens de despejo que o governo tenta encaminhar na base do diálogo, levado à exaustão e que só acaba animando ações temerárias, tanto dos sem-terra como dos fazendeiros.
Uma família despejada há de querer cobrar da direção do MST a cobertura que lhe faltou e isso leva a sua burocracia ao desespero com o receio de recuos, quebra de determinação e deserção. Do lado dos fazendeiros, o sinal de que o governo entrou em ação pode também, graças aos fatores psicossociais e ao radicalismo de algumas alas, ser encarado como o pode para as ações da polícia alternativa, uma espécie de rangers. E foi o que aconteceu.
Tentou-se de forma safada sugerir que a obra tinha sido dos camponeses. Os sem-terra certamente não o fariam, com o que se igualariam ao DOI-CODI, a estrutura de terror do Exército, que inventava atentados como o do Riocentro. Além do mais, episódios como o da fazenda Borborema, em que assaltaram, torturaram e mataram de forma covarde o segurança Django, e o mais recente de Jundiaí do Sul, levariam necessariamente a um recuo na violência que acaba tirando o apoio da população à reforma agrária, à causa enfim. A ousadia encapuzada partiu de radicais do outro lado, valendo-se do fato de que o governo passara a cumprir decisões judiciais. Uma avaliação incorreta e fanática poderia nos colocar agora diante de uma Ku-Klux-Klan à brasileira, o terror encapuzado. Pois os covardes, autores da façanha posaram para as câmaras de TV e, hereticamente, cantaram o Hino Nacional, o que torturadores também faziam em 64.
Tanto invasões de terras não ociosas como criação de milícias particulares têm que ser combatidas radicalmente. O governo tem procurado ganhar tempo no diálogo para evitar violência nos despejos. Saiu da inércia diante do caso documental de Jundiaí do Sul. Se agir com prudência, não pode ser condenado e seu cuidado deve também dirigir-se para não criar, por via tortuosa, mártires como se deu em Campo Bonito, onde três PMs foram linchados e o Teixeirinha, líder sem-terra, morto em represália, depois de torturado e execrado.
A BOBAGEM Uma das maiores mancadas do governo estadual foi de não pôr um freio nos seus gastos, conforme a recomendação de Miguel Salomão, e de ter baixado uma anistia que levou devedores que tinham suas contas parceladas ao recuo, e tratado os pagantes como idiotas e agora, nessa coreografia fiscal de correr atrás de sonegadores, o que é de uma ineficácia à toda prova.
A propósito disso e da questão agrária: é irritante ver inadimplentes que devem ao Badep, ao Banestado, que não pagam a previdência botando banca e exigindo repressão contra os sem-terra. Quem tem débitos cívicos deveria conter a baba espumante da raiva porque também está fora da lei.
BIZARRICE Miguel Angel Gutierrez, Miguelito, sobre o Palácio do Tango de Curitiba: aquilo mais parece uma quitinete do que um palácio.
FOLCLORE Há jogos da natureza no Oeste todos os dias e noites: sacoleiros disputando carreira com a fiscalização, prova de arremesso de caminhão desmanchado no Lago de Itaipu, corrida de lanchas de contrabando no mesmo local. A gincana na Estrada do Colono também faz parte do cenário.
CROMO A gravidez de pérola das ostras em seu ventre de madrepérola.
AFORÍSTICO O ato de renúncia de Mário Covas deixa clara a vocação imperial do presidente FHC e exibe o problema paranaense como de um acanhamento exemplar, de uma mediocridade gritante, prova do nosso nanismo político e cultural.





