LUIZ GERALDO MAZZA
A provação indesejada
Preferível a cama de pregos do faquir, a roda dentada do Doi-Codi, o choque elétrico nas partes pudendas, as unhas do pé e da mão arrancadas, mas me livre, Senhor, do discurso pegajoso de Fulano e da sua possível eleição.
A democracia reeduca, ensina o convívio até com os abjetos dá para vê-lo nas alianças dessa campanha à direita e à esquerda, por baixo e por cima, tudo numa suruba ideológica em que a troca de posições jamais foi imaginada sequer pelo Kama-Sutra mas o que está havendo nessas eleições supera tudo o que a vã imaginação possa engendrar. Deu até para criar um referencial novo, a TIP (em inglês significa ponta, dica e gorjeta) que seria a Taxa dos Interesses Permanentes. Quando os galinhas da alta roda e do empresariado se aproximam demais de um candidato é porque a TIP os atrai e não é preciso ter aguçado ''feeling'' para perceber que nessa área, pelo menos naquele momento, o cara é o quente.
Percebeu-se isso no aniversário de Paulo Pimentel ao qual se agregou Roberto Requião na comilança de Santa Felicidade. Ontem, no mesmo Madalosso, agora por causa do Lula, houve como medir a TIP que em tempo de eleição é como os sinais da Bovespa e do câmbio para indicar tendências.
''Si quid in mi ingenii, judices, quod sentio quam exiguo sit.'' No elogio de Cícero ao poeta Archias ele abre o discurso com a humildade: ''Se há em mim algum engenho de talento, juízes, eu o sinto quão exíguo é''. Daria para parafrasear não o Marco Túlio, o gigante dos bons exemplos, e sim o Dalton Trevisan em crônica sobre o seu horror aos chatos ''Livra-me, Senhor, dos chatos. Eles fazem talhar o leite no seio materno'' para dedicá-lo ao orador pegajoso, campeão olímpico de clichês, que desgraçadamente pode vir a eleger-se e que nós, pelo clamoroso respeito às regras do jogo democrático, teremos que aceitar. Chumbo derretido nas costas, banho em mar carregado de medusas e águas vivas de poder urticante mortal, uma batida de cicuta com uísque paraguaio, tudo, Senhor, menos essa provação.
BIZARRICE O Natinho fez música e letra da campanha de Alvaro Dias e nos dois primeiros versos da segunda estrofe está lá: ''Não pode ser lelé// nem matusquela e tan-tan''. A quem o sutil menestrel se referia?
AXIOMA O mercado responde ao FMI na alta do dólar como fez quando Lerner quis vender a Copel e ''dançou''.
GLOSA Requião deixou Alvaro Dias em saia-justa em discurso no Senado ao acusar o seu adversário da campanha eleitoral de estar segurando, na Comissão de Educação, desde 2 de maio, o seu projeto que acaba com os bingos no Brasil e que passou nas comissões de Infra-Estrutura e Constituição e Justiça. Requião diz que a jogatina serve para lavagem de dinheiro do crime organizado.
Mais um capítulo da autofagia paranaense, pois Requião ironiza chamando seu concorrente de ''nosso herói da CPI do Futebol''.
EPIGRAMA Quem se saiu melhor em CPI: Alvaro na do Futebol ou Requião na dos Precatórios? Ambas, a rigor, deram, até agora, em pizza. E aqui nós temos o Onaireves e o caso dos títulos podres que ameaça a Copel em favor do Itaú.
FOLCLORE Hermas Brandão vai cortar o salário dos deputados fujões que já reduziram a semana a dois dias. Deve ser cobrado pela Comissão de Ética.
CROMO Vi, através do vidro da janela, teu jeito de santa e cortesã.
AFORÍSTICO Um vento, que não é o minuano, parecendo mais o ''Ciroco'' (o siroco é quente do Mediterrâneo), arrasa o Rio Grande do Sul petista: Ciro 34,8 contra 27,5 de Lula numa pesquisa do ''Correio do Povo''. No estadual Brito, do PPS, 35 e Tarso Genro, PT, 32.





