Não há quem faça restrições à brilhante entrevista de FHC à ‘‘Veja’’ e que se constitui num dos documentos políticos da maior importância na história recente do País. Raros, pouquíssimos, são os políticos habilitados a desenhar um painel tão completo de valores filosóficos, históricos, antropológicos e é nessa evidência que se descobre a singularidade de que o Brasil nunca teve, nos últimos 50 anos, um estadista tão refinado em termos intelectuais.
Mas se o diagnóstico da crise brasileira e mundial, na perspectiva da nossa inserção, está correto bem como satisfatória a terapia recomendada, não se pode contestar que há uma distância muito grande entre a teoria e a prática. Sabe-se que quando se elege alguém como Fernando Henrique, o fazemos também com aqueles que não receberam votos como Sérgio Motta, o grupo enfim. Considerando ainda que este governo é de coalizão, na qual pontifica o PFL e a maior parte do PMDB, percebe-se que não há linearidade alguma entre o pensamento e a ação do presidente sociólogo.
O governo, portanto, não é frágil por ausência de doutrina, ainda que esta seja a do presidente e não do conjunto, mas por não haver fluidez justamente nos fronts político e administrativo. Situação mais ou menos assemelhada se dá no Paraná, só que aqui a doutrina é rala, não tem densidade, mesmo num momento em que se anuncia transformações no perfil da nossa economia.
Só para comparar: quando Ney Braga, em 61, iniciou sua ação transformadora, havia quadros para planejamento e filosofia (o kierkgardiano Ernani Reichmann lá estava e tínhamos ainda o Lamartine Correia Lira). Em 63, havia o primeiro plano, cientificamente concebido pela Sagmacs que divulgava a filosofia do padre Lebret. Em termos de massa crítica, não há nada comparável com aqueles dias, o que é lastimável porque as dimensões da mudança exigiriam estudos aprofundados para que se capte o lado positivo e o negativo, este sob a forma das pressões sociais, já pessimamente atendidas, e que se agravarão.
Hoje a aposta é no ‘‘marketing’’, que tenta substituir o pensamento e sugerir, tudo quase sempre por uma via virtual, uma ação dispersa, na realidade pouco eficiente e de resultados discutíveis.
SISTEMA VIÁRIO Comissão de Urbanismo e Obras Públicas da Câmara Municipal faz dia 25 seminário sobre ‘‘sistema viário e circulação’’, na continuidade dos debates em torno da revisão do Plano Diretor de Curitiba. Coordena o evento o vereador Jorge Samek que andou em parceria com o Mickey Mouse em Orlando.
Participam o engenheiro civil e sociólogo Eduardo Vasconcelos, arquiteto Carlos Ceneviva, engenheiro Eduardo José Daros (presidente da Associação Brasileira de Pedestres), arquiteta Marina Cortopassi Lobo e o coordenador do IPPUC, Elói Silvestre Kochanny.
Daros foi assistente do marxista norteamericano Paul Baran e do liberal Roberto Campos, no Brasil, a quem serviu como dirigente do IPEA.
PRESSÃO Nestes dias é incompatível falar em ‘‘não há novidades no front’’ na questão das invasões. Setores da opinião pública e políticos acham que no Paraná as coisas são intoleráveis e que o governo Lerner é o maior responsável pela situação, pois das 132 áreas invadidas, 93 ocorreram na atual gestão.
A propósito, um almoço anteontem no Patrício, restaurante árabe, reuniu vários desembargadores, juízes do Alçada, políticos, entre os quais Aníbal Khury e Richa, entre quibes e tabules. Tema dominante: invasões de terras.
A governadora em exercício age corretamente em não desencadear o plano de desocupação das fazendas invadidas, que a área de segurança elaborou, pela evidência de que se trata de uma decisão de tal natureza que cabe a Jaime Lerner, que tentou as alternativas por via pacífica e não obteve sucesso.
CENSURA A Copel decidiu não participar de um fórum na Universidade Federal, que vai tratar de termoenergia. A medida chocou os organizadores, pois se tratava de iniciativa de caráter científico, ainda que com sequelas políticas, em função da forma como ambientalistas especialmente se postam.
Com esse recuo, que não dissimula censura, a Copel comprova que o problema das termelétricas divide o seu corpo estratégico. Há a maioria que insiste em não enxergar que a empresa é de energia e não de hidreletricidade, razão pela qual resiste a outros energéticos como carvão, resíduos de petróleo e apenas está apoiando o do gás, aí porque não tem como driblar a responsabilidade.
DENÚNCIA Documento denunciando a participação do cônsul da Itália no Paraná, Marcello Alessio, em pregação em torno da separação do sul do país, foi lido pelo deputado federal Serafim Venzon na tribuna parlamentar. Conforme essa versão, um senador italiano, Valentino Perin, e o presidente da Associação dos Importadores e Exportadores do Norte da Itália, Germano Dare, integrariam o grupo que percorreu Santa Catarina.
A história é um tanto quanto emocional, não está bem clareada. O fato é que na Itália sempre houve uma divisão forte entre o sul e o norte, ainda mais com a Liga Lombarda que promoveu Berlusconi, o magnata da TV. No caso de Santa Catarina, o deputado pode bem ter confundido discussão turística com articulação separatista.
FOLCLORE Agora vão pegar no pé do vereador Samek por causa de seus contactos com os personagens de Disney: só falta dizer que preferiu botar a estrela do PT no Pateta do que no Tio Patinhas, capitalista fora de escala.

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