O trotoar dos políticos



Entre as coisas que Fernando Henrique ficou devendo ao País, justamente no momento em que o seu Ibope era insuperável, ainda na primeira gestão, foi o de pouco ter se esforçado por uma reforma política. Ela seria substancial na preocupação de reestruturar o Estado brasileiro.
Deu preferência ao cronograma da dependência, em função das exigências do FMI e dos credores, transformando-se numa espécie de capataz desses interesses e não o governante que trata das aspirações da maioria. O resultado está aí nessa nojeira que é a acomodação dos partidos nas composições mais sórdidas.
Nada mais parecido com um cortesão do amoralismo do que o estilo de nossa gente fazer política. No Paraná o leilão está escancarado e com chances de dar mais resultados do que aqueles que o próprio governo promoveu do Banestado e o da Copel, cuja venda não foi consumada, mas as parcerias acertadas, o que a Justiça está examinando no tribunal regional de Porto Alegre e com disposição para anulá-las por ferirem o interesse público.
A chantagem aberta, a barganha insinuada e o jogo sinuoso de aproximação com partidos para negociação parecem ter transformado a avenida da política em algo próximo da Rua Riachuelo e da Cruz Machado em Curitiba ou a Leste-Oeste e Tiradentes de Londrina com o trotoar malicioso de mariposas e rufiões.
BIZARRICE O bumerangue moral do PT voltou-se contra o próprio partido. Como dizia Sartre ‘‘O inferno são os outros’’, e ‘‘a imoralidade é sempre a do nosso adversário’’, doutrinariam os petistas.
AXIOMA Ficou provado de novo que as oscilações da Bolsa de Valores e do Câmbio oferecem mais riscos do que o nervosismo da Copa.
GLOSA O Brasil se dá melhor com a máfia da FIFA do que com a do FMI. Naquela até os juízes nos ajudam e na outra os auditores nos torturam, especialmente quando sugerem que nos estão apoiando com novos empréstimos.
EPIGRAMA O PL está com Lula no Brasil e Maluf em São Paulo. Com isso somem as propaladas diferenças entre um e outro. A suruba ideológica é pedagógica. Só falta agora atribuir a dificuldade das dissemelhanças à globalização, a esse ‘‘perverso modelo neoliberal’’.
FOLCLORE Como se vê com esse caso de Santo André, há várias formas de caixa 2: essa da eleição do Cassio Taniguchi, que ocorre no processo eleitoral, e a outra, a permanente, da obtenção de recursos por superfaturamento e as doações compulsórias. Empreiteiros, fornecedores, prestadores de serviço (inclusive os que locam automóveis) que aparecerem na lista de doadores podem ser encarados como presumíveis pagadores de pedágio numa operação de reciprocidade.
VINHETA Diante do clima de desconfiança, empresas que exploram o pedágio deveriam arrumar ‘‘laranjas’’ como investidores de campanha eleitoral.
CROMO O recado em giz na lousa ou a confissão no tronco da árvore a canivete ou ainda a grafitagem nos muros e no asfalto são formas de declarar amor. E o fazemos também sonhando e, por vezes, ocultando a ‘‘furtiva lágrima’’ ou até calando, essa a mais pungente das formas de amar.
AFORÍSTICO Enfim a luz no fim do túnel: as tarifas, a partir de depois de amanhã, sobem mais 11%. Ao recebermos a conta seremos eletrocutados.
ANAGRAMA Quanto mais sabemos das coisas dos homens públicos mais respeitamos, e com a máxima devoção, as mulheres públicas.

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