Luiz Geraldo Mazza
Ninguém contribui tanto para a descrença na democracia do que a nobre classe dos parlamentares. Anteontem derrubaram um veto do governador, o relativo ao regimento de custas judiciais cujo reajuste ultrapassava os 1.000%, por adesão ao pior dos corporativismos. Vários deputados, dentre eles o presidente da Casa, Hermas Brandão, e o corregedor, Caíto Quintana, são serventuários da Justiça, isso é pertencem à classe e entre a solidariedade ao público, maioria sufocada, e a sua categoria não hesitaram em votar em causa própria.
Estamos em ano eleitoral e os cartórios nunca deixaram de participar das campanhas, apoiando os que os respaldam. Por exemplo: na derradeira, vi em Londrina representantes da nobre classe (e têm todo o direito de fazê-lo), dentre eles Ítalo Conti Júnior, fazendo uma cruzada em favor de uma dobradinha com Aníbal Khury para estadual e Alex Canziani a federal.
A alegação dos que derrubaram o veto, pelo qual tanto se bateu a OAB-PR, preocupada com as dificuldades já enormes de acesso à Justiça, foi o de que os cartórios do Interior estavam na iminência de fechar por operarem no vermelho.
Para evitar que o povo soubesse quem votou pelo aumento abusivo se valeram do expediente do escrutínio secreto. Algo como os fuzilamentos militares quando na tropa da execução não se sabe qual a arma com carga letal e a de festim. Isso para aliviar a consciência, evitar remorsos, o que obviamente inexiste no caso de uma votação especificamente corporativa como essa em deboche assumido.
BIZARRICE É mais fácil conhecer a lista dos sequestráveis do PCC do que a dos que votaram a favor do aumento das custas judiciais.
AXIOMA Torna-se indispensável dar o nome dos que votaram contra como forma de não esquecê-los na próxima eleição e arquivá-los e carimbá-los em cartório.
GLOSA Anteontem sumiu na Comissão de Constituição e Justiça o pedido de CPI para investigar a morte do deputado Tiago Amorim e das mulheres em Almirante Tamandaré. O governo enrola o que pode para evitar o tema explosivo. Nunca houve tanto absurdo como agora na Casa: outro dia botaram em votação um veto do governador que já havia sido aprovado e o derrubaram.
EPIGRAMA Esconderam um pedido de CPI na Assembléia, mas cuidaram com extremo carinho do veto ao regime de custas. É sempre assim: conveniência e conivência no caso parecem sinônimos.
VINHETA Um deputado notário até por isso se transforma em notório.
VOCAÇÃO As grandes lutas da terra no Brasil Canudos, especialmente acabaram com um traço anti-republicano e até monárquico. E hoje um dos maiores líderes do MST, imaginem a coincidência, tem o nome de Rainha. É Rainha e governa.
FOLCLORE Quatro candidatos de oposição (Alvaro, Requião, padre Roque e Rubens Bueno) e ainda assim o Beto Richa não deslancha com máquina e tudo? Esse já é um caso da mais pura matemágica. Claro também de incompetência.
CROMO A bolha de sabão no espaço em zigue-zague e o barquinho de papel no meio fio a caminho do boeiro deslumbram olhos de criança e ensinam sobre o destino.
AFORÍSTICO Lerner viajou outra vez para novos empréstimos. O endividamento do Paraná vai ser um tema-chave da campanha eleitoral: a oposição acha muito, o governo acha pouco e nós achamos graça nesse contraditório.





