Senso e censura

A ânsia no sentido de que tudo deve ser publicado levou à má interpretação de alguns quanto a importância de um requerimento da Câmara Municipal de Londrina às emissoras de tevê para que evitassem a exposição de imagens que pudessem chocar os telespectadores, especialmente de pessoas atropeladas ou assassinadas. Ainda agora, em Minas Gerais, o Tribunal de Alçada condenou o jornal ‘‘Comunidade’’ de Vicosa por haver divulgado fotos dos corpos de esposa e filhos, mortos num desabamento. Essa decisão vem a propósito da injustificável oposição de uma minoria, felizmente, de londrinenses.
A compulsão pelo ‘‘escracho’’ e para atender a demanda de morbidez do público é saciada diariamente na mídia. Há ignorância e até sinais de embotamento dos que não percebem a carga criminosa desse tipo de comportamento. Como em regra isso se dá com pessoas humildes e anônimas as lições aos infratores das normas são mínimas. Vítimas decapitadas, esgorjadas, jovens violentadas e até com um galho de árvore no sexo fazem parte desse Grand Guignol. Qual a informação, qual o conteúdo dessa concessão ao macabro?
Com o alertamento dos vereadores de Londrina e essa decisão do Judiciário em Minas Gerais talvez haja um pouquinho mais de cautela em relação ao assunto. Afora a caracterização comum no campo criminal e cível há, quanto aos mortos, um outro dispositivo - o do vilipêndio a cadáver, também enquadrável. Senso não se confunde com censura.
BIZARRICE Relato do IBGE é como Encíclica papal: cada um pinça o dado que o favoreça ideologica ou doutrinariamente. Jornais como a ‘‘Folha de S.Paulo’’ carregam no negativo, ‘‘ O Estadão’’ no positivo.
AXIOMA Se o candidato é um broto e ainda não amadureceu pode dar brotoeja.
GLOSA Em Umuarama Requião se disse candidato ao governo. Peemedebistas querem que ele repita isso em todas as suas aparições na tevê.
EPIGRAMA Eleição direta pelos magistrados nas direções dos tribunais não seria uma forma de democratismo, como já se tem nas universidades? Democratismo e assembleísmo não se confundem com democracia e se aproximam do populismo.
FOLCLORE Nasce o sobrinho de um amigo do Arthur Teophilo de Castro e ele vai à casa que festeja o acontecimento com todo mundo querendo colocar nos braços o recém-nascido. E pegam na bochecha do bebê e dizem que é ora a cara da mãe, ora a do pai. O Arthur, com seu ar meio filosófico, faz a observação terrível: ‘‘É. Quando o Hitler nasceu também faziam exatamente a mesma coisa. Augúrio!’’
CROMO Do girino, um feijãozinho com a cauda, surge o sapo: do Gregório Samsa, de Franz Kafka, o corpo se torna uma barata. E nós, como éramos, e agora como estamos, diante de fotos antigas e do espelho de hoje?
AFORÍSTICO Outro dia um historiador Nilson Fraga afirmou que a guerra do Contestado foi uma limpeza étnica (exagero por força da pulsão ideológica) e isso deu margem a reações de tradicionalistas. Na verdade não perdemos apenas território para os catarinenses nesse caso. Perdemos ainda em densidade de documentação histórica, ensaística, iconográfica, literária. Um banho!
VINHETA A economia está engessando outra vez. O ‘‘Dia das Mães’’ vai maquiar o cenário, sugerindo que as coisas melhoraram.

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