Luiz Geraldo Mazza
Marginalização do trabalho
No passado era comum identificar o trabalho como fator máximo da produção e aquele que, de forma mais abrangente, envolvia o homem. Dizia-se, até para dar um fundo moral ao capital, que o trabalho era o capital humano. Como se observa havia, de saída, uma indisposição contra o capital nessa escala de valores, ainda que se afirmasse, o que nem sempre se comprova, que ele não passava da cristalização do trabalho. Natureza, trabalho, capital e organização são esses elementos; os dominantes os da organização sejam da corporação empresarial ou da trabalhista.
Neste 1º de Maio comemorado ontem, alegoria aos mártires de Chicago, que brigavam pela redução da jornada para oito horas, o que estamos vendo é uma tendência cada vez mais forte para marginalizar o trabalho como fator de produção. Até mesmo em países com tradição forte no welphare state, o estado de bem-estar das chamadas social-democracias, sofrem a pressão de uma direita enfurecida que tenta levar ao mundo, se possível, aquilo que Margareth Tatcher fez na Inglaterra que o maior historiador marxista, Hobbsbawn, considera algo bem acima do formulário comum do neoliberalismo. O sindicalismo italiano se viu obrigado a voltar às experiências do pós-guerra com a greve geral contra a flexibilização desejada pela direita no poder representada por Berlusconi.
TOTALITARISMO GLOBAL Vivemos uma quadra de totalitarismo, sem contraste, hegemônica, sob o ponto de vista militar e político, com esse liberalismo enlouquecido que despreza a sua origem de amor à liberdade para firmar o culto à ordem, o desespero para baixar custos de qualquer maneira em favor da competitividade, da tecnologia e do capital intensivo - nossas montadoras são um exemplo, como vemos na sua baixíssima capacidade de gerar empregos (pouco mais de 7.500 envolvendo as três automotivas e as de máquinas agrícolas)- e na compulsão pelo descarte do homem. Trabalho é custo, nessa perspectiva; nunca, em hipótese alguma, investimento.
Dentre as utopias erigidas ao longo do tempo, que colocavam o trabalho como o primado ético-funcional, a do Manifesto Comunista foi uma das mais fortes. Há ali a visão profética de Marx e Engels de um momento de mundialização em que os valores nacionais sucumbiam e se impunha a convocação revolucionária aos trabalhadores para que não fossem esmagados. A quadra de hoje é tão complexa que se percebe um clima de servidão, tão ou mais duro do que o vivido nos tempos do despotismo esclarecido.
O FULGOR DA ALEGORIA Nas churrascadas de confraternização entre empregados e patrões, o barril de chope esperando vencedor do jogo entre casados e solteiros, gordos e magros, que marcarão a data, não haverá tantas tensões, ainda que possam ocorrer na França por causa do afloramento da ultra direita de Le Pen. Uma tediosa acomodação sem espaço para a geração de uma utopia que renove o sonho dos socialistas de sempre, dos utopistas da Renascensa (Tomas Morus, Campanella, Francis Bacon), dos luddistas (aqueles que quebravam os teares contra a automação), das várias tonalidades de socialismo, até mesmo, sem dúvida, de algumas encíclicas papais da Rerum Novarum às que se seguiram no mesmo norte, todos enfim que se colocaram na contra maré de uma forma de servidão incompatível com um mínimo de dignidade humana.





