Luiz Geraldo Mazza
Se até a banda Legião Urbana tratou, analogicamente, do personagem bíblico na cova dos leões, o Daniel, é o que se pode imaginar para amanhã quando Jaime Lerner participará do jantar organizado pelo vice-presidente Marco Maciel num encontro nacional do PFL, tentando juntar os cacos do trauma da Sudam. Por sinal que ainda ontem e anteontem o Ministério Público Federal de Tocantins esteve em Curitiba ouvindo envolvidos da terra que não são, como se sabe, apenas os da Usimar como também os da Nova Holanda. A opulência das provas sobre a Lunus e a família Sarney foi o tom do noticiário, o que não se sabe se ajuda ou não a baixar o ressentimento dos pefelistas, ainda grogues com o impacto dos acontecimentos.
Lerner não está isolado na idéia de restabelecer a aliança situacionista, porém afirmá-lo de público, tal qual vem fazendo com insistência, tira parte ponderável do espaço de barganha do partido para tentar valorizar-se agora no andamento hipotético das negociações. O sinal dominante é o da indignação rumo à ira e à imposição, um tanto quanto cheia de soberba, de que dá para até admitir um reencontro, desde que Serra fique de fora.
A exigência radical e pretensiosa tem pouca probabilidade de prosperar. O caso Serra lembra o daquele produtor de filme que foi pedir financiamento para o King Kong. Depois de intermináveis reuniões com executivos veio a palavra final do financeiro: tudo bem vamos financiar essa produção, mas com a condição de tirar, de uma vez, aquele macaco gigante da história! O Serra é o King Kong do processo político, embora o seu aspecto de duro e mal humorado.
Lerner não vai fazer o Daniel bíblico porque, apesar das aparências, a fauna predominante não é leonina, ainda que deseje o acordo que mais a favoreça. E que seja leonino para o seu lado, é claro.
BIZARRICE Se Beto Richa está meio empacado nas pesquisas, os que aparecem bem têm problemas sérios como Alvaro Dias que corre o risco de ver a tal aliança trabalhista esfacelada regionalmente e Requião com o problema nacional do PMDB. O Padre Roque é o mais estabilizado, ainda que possa ser, na sequência, cristianizado. Bueno, em qualquer variável, vai ter que disputar espaço com o PDT se a coligação for mantida, conquanto não pareça correr o risco de Antonio Britto, do RS, cuja defenestração é exigida por Brizola.
AXIOMA Se a eleição for um concurso de oratória, o melhor do governo, e isso disparadamente, é o deputado federal Rafael Greca.
GLOSA O comitê do lernerismo é sempre hollywoodiano: seja no Curtume da Itupava e mais recentemente na avenida Anita Garibaldi, agora na antiga sede do Rio Branco, hoje pertencente ao Sílvio Name. A grandiloquência é mais do que uma grife, um signo, para constituir-se num estilo, modo de ser.
EPIGRAMA Lerner, ruim de fala, só perdeu uma eleição a de prefeito em 85 e para Requião que era conduzido pelo governador José Richa. Após levou todas.
FOLCLORE Quando Brizola voltou do exílio fez um comício apoteótico no interior gaúcho. À certa altura, dramatizando, referiu-se aos militares, dizendo que eles tinham cortado a cabeça dos opositores, o que foi seguido de aplausos. Um daqueles bêbados de comício atalhou: pescoço não brota! E cortou o frisson.





