O civismo também muda de rituais. Antes, na ‘‘Semana da Pátria’’, que se abria no dia 4 dedicado à ‘‘raça’’, o que prevalecia era um sentido formal com os desfiles, escolar e militar, alusivo à independência. Mais tarde, como desdobramento natural, e por força do nativismo incorporado à ideologia do Estado (Vargas, especialmente), chegamos àquele discurso, refrão que não leva a lugar nenhum, de que era preciso completar a independência político-institucional com a econômica. E há ainda quem nele insista, apesar da evidência do caráter interdependente que o mundo assume.
Já há algum tempo os movimentos basistas, normalmente comandados pela Igreja Católica (quanto mais ela se envolve nos problemas temporais, o que não é errado fazê-lo, mais perde prosélitos com o avanço do pentecostalismo que dá ao pobre ao menos identidade nos atos sacramentais de que participa e se vê a perder espaços para os carismáticos que agora têm até um partido), fazem essa manifestação no país e que este ano ganha clara conotação política de aberta contestação ao rumo neoliberal das coisas pela ameaça concreta de aumento da exclusão. Em Curitiba, a pilantragem política valeu-se desses movimentos para o ato selvagem de ocupação da Ferrovila no governo anterior.
Querer dar uma dimensão revolucionária ou socialista para arregimentação de lúmpens é de uma falta de honestidade exemplar, ainda mais quando se usa até o nome de Marx, um invocado clássico diante da inconsciência desses periféricos e um confiante em que justamente a acumulação do capital é que geraria quadros revolucionários em função do conflito de classes. Não há ato revolucionário, por exemplo, na forma como se ocupa terras no Brasil. É gincana porque não há enfrentamentos, e de outro lado parece a única alternativa para manter o governo sob pressão na questão agrária.
Os sem-terra são a expressão mais articulada do excluído em ação. Trata-se do maior movimento da América Latina, com mais resultados do que o traço militar dos zapatistas que ocupam Chiapas no México, nos dois casos um contraponto ao confessionalismo, supostamente vitorioso (a história o desmascarará porque ela não tem a finitude sugerida, superficialmente, por Fukuyama) do neoliberalismo como sistema dominante. Eles são a operação alternativa, um pela tolerância e outro pelas armas, que marcam o nosso estágio, já que no primeiro mundo desse contraste se ocupam a esquerda possível, especialmente da Europa, cuja maioria de governos é de tonalidade trabalhista, socialista, vale dizer social democrata e que contesta a tentativa de remover benefícios sociais, como se pretende lá com menor ferocidade do que no Brasil.
Seria impensável no regime militar que fosse admitida a presença de brigadas de aposentados, desempregados, em desfiles como algumas lideranças, até com um certo impulso fundamentalista, estão pregando para contrastar com o sentido da ordem imanente nos desfiles militares. Isso seria tido como provocação, mas não na democracia. Oposta radicalmente à idéia de ‘‘ordem’’ - o que inexiste num quadro de anomia institucional - essa presença perturbadora vale como uma dura contestação ao que está aí e que obriga à reflexão.
Apenas um cuidado é indispensável: não fazer o jogo do endurecimento como se deu em 1964, quando uma esquerda, com tradição golpista, de querer ocupar o aparelho de Estado de forma mansa e pacífica, colocou tudo a perder ao pregar a quebra da hierarquia no Exército com a pressão dos sargentos. Lembro da cena patética de Prestes dizendo em Curitiba, poucos dias antes do golpe militar, que esperava que a direita botasse a cara de fora. Botou, ficou e não saiu.
FERIADÃO Dá para imaginar o que se dará hoje e especialmente segunda-feira nas rodovias, no retorno do feriadão de curitibanos. Vai ser novamente mostra de que o problema não é apenas de engenharia, mas essencialmente de uma nova cultura que envolva todos os agentes do processo. Como de resto ocorre no tráfego urbano.
A propósito disso, a Câmara Municipal de Curitiba promove um seminário, a partir de 25, sobre ‘‘Sistema Viário e Circulação’’, do qual participará o especialista Eduardo Vasconcellos. Acho indispensável a convocação de Mirna Cortopassi, arquiteta com posição vigorosa de crítica ao trinário, e do gênio Eduardo José Daros, o defensor do pedestre no Brasil.
BIZARRICE Se o desenvolvimento industrial do Paraná depender de Requião e Osmar Dias, não teremos sequer uma fábrica de rolimãs. Observação de Ricardo Prefeito.
GREQUICES ‘‘Vamos dar de chinela em Requião e Álvaro, o primeiro fugindo do fantasma Ferreirinha, o segundo da vaia dos professores.’ O saque é do alegríssimo Rafael Greca, que vai ter o ‘‘serviço quebrado’’ por um dos dois tenistas sem uso das artes de um Guga.
Mais atual do que o Ferreirinha ficção, há o Teixeirinha. E quem corre o risco de vaias agora é o próprio governador, com o Estado quebrado.
FOLCLORE Historiadores, estudiosos de heráldica, mudaram, no governo Álvaro Dias, os símbolos do Paraná, bandeira e brazão. Isso está contestado no STF. Há quem ache a substituição do lavrador por um semeador irreal: aquele, segundo chiste do saudoso Joffre Cabral e Silva, é um paranaense que está com ceifadeira à mão pronto para cortar a cabeça do primeiro que deseje aparecer.
CROMO ‘‘Alvi verde, pendão da minha terra,// que a brisa do Brasil beija e balança// Estandarte que a luz do sol encerra// nas divinas asas da esperança//’ Castro Alves não se confunde com Don e Ravel. É possível o civismo sem ser pegajoso.

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