Luiz Geraldo Mazza
Apesar de o presidente FHC ser do PSDB, percebe-se que cada vez mais age a reboque do PFL, daí o caráter direitista, pelo menos em relação ao discurso social-democrata, que o seu governo vai assumindo. E como aquela escola de psicologia fenomenológica sugere a classificação pela aparência, a entrada do Lerner, ainda que significativa, não vai reduzir em nada essa presunção generalizada do público e de analistas.
Talvez seja em nome da necessidade de lutar pelo seu ideário, e evitar que a sua contaminação com a parceria leve a incubação de moléstia incurável, que cardeais do PSDB lutam pela tese das candidaturas próprias nos estados, mesmo sabendo que podem perder na maioria deles. É uma resistência interna oposta justamente ao pragmatismo dos que colocam como questão principal a reeleição de FHC e o resto como ornamento. Personalismo, o senso do homem providencial, tiques brasileiros e impermeáveis à democracia, estão introjetados no culto ora desencadeado em favor de FHC. Mas se a correlação de forças persistir como está, o PSDB fica outra vez com a presidência e sem o governo.
Essa argumentação é admissível quando utilizada pelos cardeais de São Paulo como o Montoro, José Serra e Mário Covas. Já não vale no caso paranaense, pois a bronca aqui, diante de Lerner, é mais um jogo de vaidades e a pulsão dos ressentimentos do que a fundamentação em doutrina, tanto que tentou ingressar no partido e foi vetado. Álvaro Dias admite negociar e exige compensação de espaços quando não tem lá muito o que exigir, ainda que se deva reconhecer tratar-se de um figurante doranking eleitoral.
Mas se em São Paulo tudo indica que Covas será fritado, perdendo para Maluf, sem que FHC faça coisa alguma, apesar dos murmúrios inconformados de Sérgio Motta, a situação paranaense pode se agravar se o PSDB, cada vez mais murcho que maracujá de gaveta, tentar impor uma saída que signifique indiretamente dar respaldo a um candidato do PMDB como Requião, que poria seu talento verbal contra o presidente e a sua reeleição.
A pergunta clássica quantas divisões têm o papa? poderia ser feita agora aos alvaristas. Se eles têm o Luiz Carlos Hauly, fiel ao governo federal, porém ressentido da derrota eleitoral de Londrina, perde em importância parlamentar para Lupion, cuja expressão ultrapassa a própria bancada por sua influência entre deputados ruralistas. PSDB no Paraná tem cacique, mas não cacife.
ANÁTEMA Um dia o Brasil vai saber quem é o senador Roberto Requião. Frase derradeira de Lerner na entrevista anteontem a Juca Kfoury. Só que se o Brasil depender do governador para saber disso, jamais saberá coisa alguma. É uma questão de estilo.
Em compensação, Requião diz o que sabe, o que ouviu e o que não sabe sobre Lerner e não há resposta.
ACM Bancada federal do PFL quer vetar Paulo Cordeiro, cuja ficha foi assinada por Antoninho Malvadeza. Recebo o pedido como presente de aniversário -, teria dito o presidente do Senado. Essa parada é indigesta.
DESCUIDO Taniguchi teria declarado que o sistema de transporte de Curitiba vende idéias, não equipamentos. Não foi o que aconteceu no Rio, quando tentaram ampliar a frota (denúncia de O Globo) com ônibus Volvo, que de 4% passaria a ter participação de 40%. Aliás, houve uma questão em torno de patente que era pública e o escritório técnico de Lerner procurou apropriar-se sobre as estações-tubo. Idéia incorporada ao que é público se transforma em pública, embora no Brasil seja difícil precisar a linde entre público-privado.
Há idéias que se traduzem em acrílico, ferro tubular, etc.
BIZARRICE O institucional sobre café adensado foi considerado propaganda enganosa pelo Conar. Ora, os anúncios de um modo geral são enganosos: nos remédios, por exemplo, subestimam efeitos colaterais e destacam os terapêuticos; para sugerir que os meninos de rua são atendidos, mostram um em instituição sorrindo, e ocultam os que, em maioria, persistem abandonados.
SPRAY Ministério Público entrou com ação contra o município de Curitiba por agressão ao patrimônio histórico, no caso do desleixo com a obra de Guido Viaro. Está aí uma das façanhas da gestão anterior, que obrigou o filho do pintor, cujo centenário está sendo comemorado, Constantino Viaro, a retirar o acervo do local em que se encontrava e de onde desapareceram 40 desenhos.- Deputado Emerson Nerone assina hoje em Maringá, na Câmara Municipal, a ficha do PSN - Partido da Solidariedade Nacional -, da linha carismática da igreja. Outro ex-petista, vereador Cabo José Maria dos Santos, também se alinha. Saem de uma seita para outra.- Gastos de propaganda no Sul do Brasil em 96: Lerner, R$ 100 milhões e 290 mil; Brito, R$ 19 milhões e 658 mil; Paulo Affonso, R$ 41 milhões 596 mil. Quem o revela é o jornal do PT. A tranformação que a gente faz.-
FOLCLORE Café adensado é propaganda enganosa até porque não poderia este governo revolucionar a agronomia em tão pouco tempo. Mas o Álvaro Dias também não fez o que está inaugurando na Telepar. E propaganda adensada, como a dos dois, o que é?
CROMO O príncipe cansado chega junto ao vitral do Palácio na manhã fria e solta vapor pela boca. O assessor ao lado enxerga um arco-íris.
AFORÍSTICO O Paraná vai pagar por ser bonzinho: não emitiu títulos para pagar precatórios, está sem dinheiro e sujeito à intervenção federal. Por não ter pago precatórios. O non sense é maior quando se vê a euforia oficial.





