Tadinho do brasileiro

A vitória do Kleber no Big Brother levou muita gente a considerar que houve identificação heróica de um público habituado à autocomiseração, ao culto em defesa dos coitados. Há estudiosos de linguística e semântica que dizem que coitado significa aquele que sofreu o coito, uma transa, sem desejá-lo. Nos meus tempos de infância minha avó materna, dona Cota, sábia em máximas antoninenses, dizia pedagogicamente até para reprimir o sentimento pernicioso: ‘‘coitado é filho de rato que nasce pelado’’.
Esse cacoete permeia a alma nacional como decorrência daquele impulso nosso pelo melodrama, o sentimento piegas à flor da pele. Um dos vetores fortes para o populismo (e dá-lhe Getúlio Vargas, Jânio, Jango, Collor), essa fragilidade está ligada à outra: a do Estado como o Pai Patrão, o que prevê e provê, a que todos acorrem como se fosse uma representação de Deus na terra. Felizmente isso está mudando, alguns focos de resistência feudal (Bahia, Maranhão, Pará, por exemplo) estão abalados por causa dos seus respectivos coronéis. O Brasil é como a cobra que está a trocar o couro.
O coitadismo está na literatura, na oratória, na ideologia política e ainda na religiosa. Uma das causas da dificuldade de estruturar uma esquerda esbarra nesse arquétipo que os políticos nem tentam remover porque os utilizam como arma de proselitismo. Se não houver uma lágrima, um estertor dolorido, em defesa dos excluídos, a peça não será brasileira. Isso impregna a nossa dramaturgia que só em tempos mais recentes tenta se desgarrar da patologia. E está presente em ações sociais como as do MST, nas quais o sentimento de pena e piedade, nem sempre num sentido construtivo, é maior do que o de justiça.
BIZARRICE Quando o brasileiro tem pena demais de si próprio busca um bode expiatório (respiratório, segundo o vereador do Piauí), o culpado, para as suas frustrações. Barbosa, goleiro da seleção, viveu o sentimento de culpa da derrota em 1950 como o de Barrabás por haver sido solto em desfavor de Jesus.
AXIOMA Numa eleição o brasileiro se projeta no mais rico e mais bonito. Lula é parecido demais com a maioria, apesar das reformas de forma e conteúdo, para merecer a escolha. Perdeu na foto para Collor e FHC. É o coitadismo em ação.
A lenda de Narciso às avessas: foge-se da própria imagem, que dá pena.
GLOSA Essa dificuldade de identificação leva a outra distorção: se trabalhador votasse em trabalhador talvez o nosso capitalismo fosse menos selvagem. Outra constatação é a de que a mulher, maioria no colégio eleitoral, vota em homem.
EPIGRAMA ‘‘A política é assunto sério demais para deixá-lo nas mãos dos políticos’’. Essa é uma paródia da feita sobre a guerra, que não poderia ficar ao cuidado dos militares, de Charles De Gaulle, militar e estadista francês.
FOLCLORE Agora, que a tempestade passou, o sujeito declarar-se comunista ficou normal, como se viu nos oitenta anos do PC do B. Em 64, consta, que dividiram turmas na prisão em ‘‘corruptos’’ e ‘‘subversivos’’. Como eram em menor número alguns tidos como esquerdistas preferiram figurar na ala mais suave.

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