Diz-se que as tais sociedades beneficentes que levam o nome de Internacional (como o time de futebol gaúcho e a curitibana da Água Verde) se refeririam ao movimento socialista. Uma das ligações, no caso do time de futebol, é a da cor vermelha, marca da Internacional Socialista. Essa é uma forma de alegoria que suaviza um acontecimento forte como se dá, por exemplo, com o auto popular das cavalhadas que reproduz em campo aberto a luta entre mouros e cristãos.
Há duas alegorias, uma sangrenta e cheia de significados mágicos como a da ‘‘Farra do Boi’’ de origem açoreana, comum no litoral catarinense, e outra, que se estende por todo o país com o folguedo da ‘‘malhação de Judas’’. Ambas com fortes conotações religiosas até porque o boi é um mito fortíssimo que emerge das tradições greco-romanas e que ganha sintaxe e expressão brasileira nos autos populares do ‘‘Boi de Mamão’’ ou do ‘‘Bumba meu Boi’’.
Tanto num exercício como no outro há resistências: no da malhação, da própria Igreja que faz restrições ao brinquedo, e no da ‘‘Farra do Boi’’ das ONGS que protegem animais da crueldade e como deu para ver de novo em Santa Catarina da própria autoridade policial por determinação do Ministério Público. A malhação é também um ato político na medida em que os manifestantes transformam em Judas os políticos que olham como seus opressores ou às vezes até um vizinho ou um patrão de maus bofes.
Especialmente nos grandes centros, lugares em que os desafios públicos são maiores como a violência e as enchentes de São Paulo, há uma espécie de catarse popular quando as pessoas se atiram com fúria em alguém representando um prefeito, um governador, o presidente, um empresário ou qualquer político. Normalmente tudo isso é feito em ambiente de muito bom humor já que os jovens e as crianças é que predominam nessas ‘‘execuções’’ festivas. Quando também nos jornais um bacana é denunciado ou preso funciona esse mecanismo de compensação psicológica. Em Cuba a plebe ululava com as execuções dos tribunais revolucionários, no Brasil havia algo parecido -e isso era ‘‘quase’’ alegórico-quando saíam, nos anos sessenta, as listas de cassações.
BIZARRICE A melhor crítica ao sistema de circulação da cosmopolita Camboriú foi do jornalista Luiz Gonzaga Mattos: ‘‘você paquera uma peça na avenida e só vai reencontrá-la na temporada de três ou quatro anos depois’’.
AXIOMA Se houvesse segundo turno, segundo a Sensus, Lula faria 42,9% e Serra 41,2%. Teríamos um empate técnico por causa da margem de erro. Aliás, margem de erro é aquilo que o eleitor sente depois de eleger alguém.
FOLCLORE Dois políticos do Paraná, sempre em destaque, hoje afastados, viajam daqui de Curitiba a Ponta Grossa. O jornalista, que testemunha o itinerário, conta que daqui até lá só falaram de xampu.
CROMO Sorte do vagabundo: vestiu-se de madrugada, a lua testemunhou, com as roupas de um boneco que seria malhado como Judas exatamente ao meio dia.
AFORÍSTICO Não foi o ano de 1968 que não terminou, mas sim a escravização de todos nós às frases feitas com suposto sopro de eternidade.

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