Luiz Geraldo Mazza
Impensável, três décadas atrás, o excessivo aggiornamento do que se dá hoje na religião: lojas e restaurantes funcionando, aquelas queimando os seus estoques de chocolate até o Domingo da Páscoa e estes não abrindo mão de botar a carne no cardápio, embora ofertando bacalhau e peixe. Deu-se com a morte de Cristo e com a própria Ressurreição o mesmo ocorrido com o Natal que voltou às suas origens pagãs dos ritos mitraicos com o culto ao sol dos egícios (Natalis Invictis Solis). Se já era pagã e foi cristianizada acabou retornando ao sentido materialista com seu dominante aspecto mercantil, tornando quixotescos todos os esforços no sentido de retomar a tradição espiritual da festa.
É em função de todo esse pragmatismo, mais a ideologização havida com a alta da Teologia da Libertação, que reduziu a problemática religiosa ao temporal, quando essencialmente trata do sobrenatural e da transcendência, que cresceram os movimentos tendentes a recuperar o mistério e o carisma. Daí a expressão de um padre Marcelo Rossi, hoje colocado no nicho apropriado como estrela do sistema global de televisão.
Pelos efeitos lamentáveis dessa tensão dialética a Teologia de Leonardo e Clodovis Boff, deflagrada por Joseph Comblin, bem estruturada como filosofia de ação, oposta ao radicalismo místico dos carismáticos ficou demonstrado que a uma ação às vezes corresponde não a uma reação e sim a uma deturpação.
Tirar o sentido cristão do Natal e ao mesmo tempo da Paixão e Ressurreição é uma obra prima de desmonte espiritual, ainda mais quando serve de insumo para a doutrina dominante e que consagra o mercado como o novo Deus, cuja mão tida como invisível tudo acertaria no jogo de interesses da ordem globalizada.
BIZARRICE O anedotário sobre as encenações da Paixão de Cristo é de, fato, inesgotável: em Paranaguá, Jesus, interpretado por Roberto Menghini, está na cruz e é preciso mostrá-lo astênico, com perda de vitalidade e para dar idéia de suor intenso um empregado do Cine Santa Helena lança um balde de água fria no personagem. Ele tenta dizer um palavrão, xingar a mãe do desalmado, quando o pano abre lentamente e ao ator coube apenas pender a cabeça, como quem está desfalecendo e balbuciar bem baixinho a sua bronca.
AXIOMA Pesquisa Sensus mostrou que 78% do povo não acredita na contabilidade eleitoral. E boa parte não aceita igualmente o resultado dos pleitos.
FOLCLORE O argumento de que a grana encontrada na Lunus era para o caixa de campanha de Roseana, a despeito de caracterizar crime, já que não teve seu nome homologado em convenção, mostra o respeito que se dá ao processo. O advogado e anarquista Elísio Marques faz trocadilho com o brocardo jurídico do testis unius, testis nullus (testemunho único, testemunho nulo) e saca o testis Lunus, testis nullus.
AFORÍSTICO Em algumas coisas temos governo demais, em outras de menos. O ideal é que o governo não deva ser onipresente, mas que também não seja ausente.





