Lerner, como acentuou em seu discurso, entra no PFL com o compromisso da transformação. Essa é uma palavra de forte cintilação semântica e que pode significar muito como também absolutamente nada.
Não há razão para imaginarmos que com esse batismo, o Antonio Carlos Magalhães se transforme num doutrinador do padrão Alberto Pasqualini, e o Aníbal Khury num seguidor da democracia participativa. Ninguém, aliás, é tão ‘‘transformador’’ como os dois por sua visceral visão da política na atenção a demandas dos aliados.
Que Lerner fortalece o PFL e o leva até a elefantíase, nem se discute. Passa a ter o primeiro governador no Paraná em sua existência e com uma bancada de 17 deputados estaduais, o que é, a rigor, uma triplicação dos números.
Nas últimas eleições municipais, o PFL fez 7% no Paraná, enquanto no País obtinha 17,2%, um pouquinho atrás do PPB, com 18,1% (aí entra o peso do segundo turno em São Paulo). Graças a Lerner, o PDT tinha no Paraná o seu reduto mais importante (36% dos votos, 111 prefeitos).
Se o governo federal não facilitar as coisas para o Paraná, onerado com o garrote vil da ‘‘lei Kandir’’ - que desonera exportações -, e se não aplainar o caminho para uma acomodação sucessória com o PSDB, o PFL terá levado mais vantagens do que Lerner nessa transferência. Aliás, atingido (e Álvaro Dias é extremamente sensível, desejoso que está de um revide do massacre de 94) pelo frisson da festa ‘‘liberal’’, o presidente da Telepar afirmou que não há imposição externa para impedir o PSDB de ter candidato próprio.
O lado melancólico da festa de ontem é a constatação de que do regime militar ao atual, nada mudou: a mesma fauna lá estava, como aliás permaneceu junta quando o PMDB ganhou os governos. Essa é a essência, no sentido ontológico, do PFL: o agarramento ao poder, a incapacidade absoluta de viver fora dele, isso desde o seu surgimento quando, apoiando um militar (Andreazza) nos estertores do regime, negou-se a ficar com o vencedor da convenção do PDS, o civil Paulo Maluf, e partiu para uma aliança em frente ampla em favor de Tancredo Neves.
Se no PDT já se percebia postiça, no caso paranaense, a simbologia da rosa com o grupo dominante, no PFL não se poderá sequer imaginar que daqui para a frente o partido assuma um timbre rosa choque.
MAIS SINECURA No disparo uma velha mutreta de políticos fisiológicos: criação do Tribunal Municipal de Contas. Como o Denorex que tinha cheiro e jeito de remédio e não era, isso parece conter o estilo de Aníbal Khury, que não se limita a ser o campeão da criação de municípios, como pretende ainda alguma entidade para decretar-lhes a extrema unção. Parece anibalístico, mas pode não ser. Afinal, não se deve criar aquela paranóia de 64 quando militares diziam que a revolução só chegaria no Paraná quando cassassem o deputado. Injustiça, pois o Aníbal foi a favor do golpe, inclusive com seu irmão Jorge, talentoso frasista da banda de música de Carlos Lacerda, também cassado.
INTIMIDADE Encerrado o discurso, música alta e aplausos, Lerner se aproxima da mulher, dona Fani, e pergunta se se estendeu demais. Ela, sorrindo, responde: ‘‘Não. Estava ótimo.’
PODA Leonel Brizola também falou sobre a adesão de Lerner, Greca e Taniguchi e disse que eles não saíram do PDT e sim que foram expulsos. O partido passava por uma ‘‘poda’’ com o corte da parte podre. É melancolia maior do que a da festa do PFL esse final do velho caudilho. Disse que o partido foi abandonado como uma laranja chupada. E agora ele vai convocar ‘‘laranjas’’ do Requião para o pomar devastado.
Laranja chupada, na beira da estrada, ou tá bichada ou tem Brizola no pé.
BIZARRICE Vereador Aldemir Manfron, antes de ontem, foi de uma sutileza de diplomata ao dizer que haviam lhe surrupiado a agenda em plena Câmara, quase sugerindo uma revista nos seus colegas e populares que lá se encontravam.
SPRAY Renault já tem oito organizações que se beneficiam da imunidade fiscal e isso justifica amplamente o pedido de informações do deputado Romanelli.- É possível que nem na sessão do dia 19 do Órgão Especial do TJ venha a ser examinado o mandado de segurança que pede a abertura dos protocolos da Renault e demais montadoras.- Não há mais justificativa para o sigilo, além de o governo ter anunciado em propaganda enganosa que estava abrindo os protocolos. A alegação de que há novas montadoras interessadas não justifica a manutenção do segredo, pois o Senado já criou uma subcomissão para investigar a guerra fiscal que agrava ainda mais o quadro das finanças públicas.- Rodolpho Hey é um advogado polêmico: agora está pedindo a prisão preventiva de Pedro Paulo de Souza, dono da Encol.- Justiça federal (2ª Vara, Brasília) recebeu ação popular de Joni Varisco pedindo a condenação do Senado e dos senadores Roberto Requião e Osmar Dias a indenizarem, a título de perdas e danos, o tesouro do Estado do Paraná por causa do bloqueio aos empréstimos internacionais.- Lerner estava surpreendentemente bem no discurso e nas entrevistas ontem. Semana passada, nota dois. Ontem, nota oito. Não escapa dos exames orais.-
FOLCLORE O senador Osmar Dias sugeriu que o seu irmão Álvaro Dias e o senador Roberto Requião deixassem a vaidade de lado e acertassem uma candidatura única para enfrentar Lerner. A vaidade, às vezes, é maior do que as possíveis qualidades restantes.
CROMO Parachoque de caminhão: ‘‘Dr. Fernando não foi isso que combinamos.’
AFORÍSTICO Lerner lembra o seu time de coração, o coxa, que era clube nacional e virou regional.

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