É possível que o acontecimento de hoje em Curitiba, o ingresso de Lerner no PFL, acabe tirando um pouco do impacto causado pela morte da princesa Diana. É pelo menos com essa visão, que gente habituada à prática do triunfalismo como concepção de vida (daí os desregramentos sociais de suas práticas tanto em Curitiba como no Paraná) cultiva, que se olhará a solenidade à qual estarão presentes aqueles mesmos personagens da ribalta social e política, amantes dos canapés e do oba-oba, independentemente de quem está no poder.
Não havia outra saída para o grupo do governador, que seguramente é bem mais profissional do que os de Álvaro Dias e Requião pela circunstância de que, ao contrário daqueles, tem um plano de ocupação do poder numa simetria entre o econômico e o político, face aos seus vínculos com o mundo empresarial. Tanto que apontado como o ‘‘guru’’ de Lerner, Karlos Rischbieter tem um tráfego forte nas ligações do setor público diante do privado. Haja vista para o número de empresas em que ele figura como consultor, por força de sua passagem pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Ministério da Fazenda, Codepar, Badep, IBC.
Esse profissionalismo, que em si não é um mal e até pelo contrário expressa os valores modernos e pragmáticos, está presente na relação orgânica que mantém especialmente com empresas que cultivou e apoiou na Cidade Industrial que ajudou a erigir com os recursos, em parte a fundo perdido, que o regime militar lhe concedeu. Enquanto os outros em campanhas eleitorais se valem de clientelas ocasionais como empreiteiros, prestadores de serviço, fornecedores da área pública, Lerner sempre contou com um dispositivo que poderíamos considerar cativo e no qual Mário Celso Petraglia era o grande coordenador e que apostava todas as fichas, em nome pessoal e do grupo, nas empreitadas. Com a sua saída, é indispensável que surja um regra três e com sua eficiência.
Mas a festa será meio insossa, Lerner assume encabulado a condição de estrela de um partido que abominava, ainda que se tratasse de seu nicho de origem, e se era postiço no PDT, persistirá assim no PFL. Em termos sérios, a festança é melancólica por decretar, antes do tempo, o fim de uma liderança nacional com traço renovador porque irá comer pela mão de ACM e até de outros da hierarquia inferior, como Bornhausen. Pra quem já agia com espírito de servidão diante de Aníbal Khury, isso não impressiona.
‘‘EU TÔ MALUF!’ O grito ‘funk’ em favor do ex-prefeito de São Paulo mata a pau toda a carga, aliás procedente, sobre emissão de títulos públicos e a venda de frangos. As peças produzidas na TV mostram que a onda contra Maluf é porque ele lidera pesquisas.
Mesmo argumento que o Requião usa quando lhe falam na reabertura do processo do Teixeirinha, atribuindo-a ao Palácio Iguaçu quando se processa justamente na instância judicial.
DINHEIRO Grana, cacau, grampo, segundo o Candinho Gomes Chagas, são sinônimos do motivo real que aproximou Lerner de Brizola quando este era governador do Rio: dinheiro. Ele cita o contrato com o Banerj e BD-Rio em que a equipe recebia 2.195 ORTNs. Houve resistências do Tribunal de Contas e em 83 a queixa de que impusera a venda de mil novos chassis marca Volvo ‘‘que de apenas 4% quer passar a deter 40% do transporte urbano.’ O registro é de ‘O Globo’.
MEIA CANCHA Se há algo que não combina com o estilo do senador Osmar Dias é o de diplomata. Mas é isso que o PMDB está desejando que ele faça para conseguir a aliança com o PSDB. O Planalto, pelo jeito, apesar da reação do Sérgio Motta, deseja uma acomodação com Lerner na cabeça e Álvaro no Senado.
Osmar tenta convencer o próprio Álvaro Dias que deve sair pelo Senado com Requião para governador. Aí é trocar o certo pelo risco, mas paixão é algo que nada tem de cartesiana.
Outra hipótese seria o Osmar sair a governador pelo PMDB se Requião viesse a pipocar ou decidisse disputar a presidência.
O sonho é livre, o pesadelo é o inesperado. Conclusão a que poderiam ter chegado ontem no encontro entre o senador e deputados do PMDB que temem não se reeleger, se não houver um ‘‘puxador’’ de votos na eleição majoritária.
BIZARRICE Está certo que o PSB será o ‘‘santuário’’ a abrigar a esquerda lernista que têm escrúpulos em ir para cova-rasa do PFL, Armando Raggio de porta-estandarte (e quem teria feito a cabeça do arraial foi Jamil Hadad). João Mangabeira deve estar descascando goiaba no túmulo!
Análise do observador anarco-associativista Elísio Marques.
CAIXA PRETA Mistérios da Renault cada vez mais insondáveis: agora foi divulgado em Diário Oficial, e cujas mensagens exigem um Badan Palhares para traduzí-las, que o acordo 1322/96 foi revogado. Certamente para dar mais vantagens. Outra coisa: as subsidiárias da Renault, fornecedoras ou prestadoras de serviço poderão se beneficiar dos créditos em ICMS em até 100% e isso está levando o deputado Romanelli a um pedido de informações que as ‘‘vaquinhas de presépio’’ certamente vão negar. Há duas hipóteses de a caixa preta das montadoras ser aberta: uma decisão do Judiciário ou a convocação de Lerner pela subcomissão da guerra fiscal do Senado. Só que Osmar Dias não pode convocar o Paraná em primeiro lugar. Soaria anti-ético e provocativo. Mas que seria divertido não há como negar.
FOLCLORE Nasce hoje em Curitiba a ala esquerda do PFL. Como a das baianas é dominante, surge natimorta.

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