Nenhuma convicção


Os recentes acontecimentos da vida política brasileira acentuam no respeitável público um sentimento profundo de ceticismo. Da mesma forma que a polícia de São Paulo, depois de tanto bater a cabeça no combate aos sequestros, consegue prender lideranças do sistema e clarear até casos como o das mortes dos prefeitos do PT, também foi possível, no campo da política, após a autoridade apurar as urdiduras de Jader Barbalho chegar nas que envolvem a família Sarney.
E como a classe política reage a esses estímulos e desafios? Da pior maneira possível, fazendo uso da dissimulação e tentando transformar o acessório – o possível vazamento da batida no escritório de Jorge Murad – em principal e causa de todos os atropelos que ora se dão nas votações das matérias de interesse do governo, dentre elas o caso da CPMF.
Um País que assistiu a queda de um presidente e mais recentemente dos dois últimos presidentes do Senado deveria ter criado instituições e procedimentos mais ágeis para enfrentar tais adversidades.
Uma teatralidade pouco digna marca esse momento. Afloram ressentimentos como os da ira do deputado Inocêncio de Oliveira, ainda curtindo as mágoas da sua derrota para Aécio Neves, e o tom indignado do presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, reafirmando a candidatura de Roseana tem tudo de um gesto de moratória, o de ganhar tempo enquanto leva uma dose de angústia ao governo federal, retaliando, pela demora, na aprovação do imposto do cheque, que já teria rendido um prejuízo de dois bilhões nas contas públicas.
Por essas razões e a ausência de convicções norteando os agentes em conflito é que se compreende o horror que o público devota à política.
BIZARRICE O governo paranaense, depois da passagem desastrosa de Rafael Greca pelo ministério, volta a ter algum prestígio no campo federal. A inauguração do complexo de pontes em Porto Camargo, precedida das ações de Lerner como mediador na crise com o PFL, dá uma nova densidade à nossa representação.
AXIOMA Prevalece a idéia de que no Brasil só o julgamento político e nunca o jurídico remove crises como as da queda de Collor, dos anões do orçamento, dos senadores ACM, Jader Barbalho e Arruda.
GLOSA Com a extorsão praticada por policiais de Maringá na liberação de quadrilheiros dos sequestros fica mais do que provado que as mudanças na Segurança depois da passagem da CPI nacional por aqui foram claramente insuficientes.
EPIGRAMA O País, apesar de tudo, melhorou: seria impensável, no passado recente, haver tanta denúncia e tanto enquadramento como o desse episódio envolvendo desembargadores federais.
FOLCLORE Há quem esteja exagerando na importância concedida à viagem do presidente FHC ao Paraná como capaz de desencadear fatos novos, inclusive na relação das forças aliadas. Mas há quem faça prognósticos sombrios e lembre que em 1953 Getúlio Vargas anunciou aqui a criação da Eletrobrás e meses depois enfrentaria a crise que o levaria à morte. Nem uma coisa, nem outra. Simplesmente o Paraná deixa de ser passivo.
CROMO O bicho pau se oculta na mata, a perereca se funde nas plantas e os teus olhos verdejantes se revelam nas tonalidades do mar.
AFORÍSTICO Quando teremos uma experiência verdadeira de menos governo, menos asfixia na vida do cidadão comum? Hoje um ato do Banco Central, uma Medida Provisória com força de édito, uma simples portaria nos transformam em reféns sem condição de resistência.

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