Muita gente achou maldosa a observação de que a greve funcional só seria sentida pelo governo se houvesse a adesão da mulher do cafezinho. Há mais profundidade na charge do que aparenta à primeira vista: um governo que age mais no plano virtual, sem obras a contabilizar, só sente o vácuo se lhe faltar nos rituais palacianos o café e a água mineral, indispensáveis nas artes cotidianas do trato administrativo. Quem sabe diante disso o governo tomasse consciência da sua inutilidade operacional, de sua vacuidade extrema
e, em consequência, percebesse a greve.
Reconheçamos que não há como atender qualquer demanda no atual momento, o Estado ‘‘quebrou’’ (o brasileiro, não o de Lerner, como Requião, de forma primária, sugere) e a despeito de o Paraná até se encontrar em situação superior à maioria das unidades federativas não tem caixa sequer para suprir as suas obrigações mínimas.
Fazer greve daqui para a frente (e isso dá para ver entre bancários e até os metalúrgicos) exigirá motivação excepcional e isso em escala universal e por uma razão elementar: as pessoas se agarram com o que podem no emprego para não perdê-lo, mesmo quando, tal é o caso da parte maior do funcionalismo, há baixa remuneração. Daí a apatia e o fato de a maioria dos participantes de ontem ser constituída de setores que paradoxalmente tiveram os maiores aumentos como é o caso de professores e policiais, também os mais arregimentados.
Até aqui não houve atraso de pagamento e tanto que ontem saiu o relativo a agosto (normalmente deixam para o derradeiro dia e a sorte foi que a data caiu numa sexta-feira), mas não há garantias de que isso não possa ocorrer nos outros meses, a despeito da prioridade conferida a esse compromisso. Ademais, a provisão para o décimo terceiro foi apropriada no sufoco da prodigalidade.
Os grevistas remam contra a maré, são figuras quixotescas e respeitáveis porque agem mais em nome de um conjunto do que de sí próprios. Marcaram, com seu esforço e mobilização, contra a apatia e o medo de tantos, uma posição histórica e que deve ser usada eleitoralmente, como se fez com as tropelias de Álvaro Dias com o professorado, porque essa é a única forma de punição possível aos poderosos de plantão.
Com o sequestro da servente, aquela do cafezinho, Lerner seria refém de sua solidão mal partilhada com a inutilidade dos áulicos e com isso poderia, como os personagens sartreanos, descobrir-se num espelho palaciano.
CLUBE DOS 60 Foram condenados, por enquanto, no processo de falsificação de guias do ICMS os cabeças Ademar Costa, Iran Casagrande e Eddy Araújo. Penas são severíssimas. O julgamento dos demais acusados e dos empresários fica para depois, muitos deles aliados de campanhas eleitorais do situacionismo. O que não deixa de ser um mérito para o governo: amigos, amigos; fraudes à parte.
PRENSA Está havendo ‘‘prensa’’ em cima do perito que examina a segurança do Pinheirão para que o laudo saia antes de 7 ou 8 de setembro para o clássico Paraná x Coritiba. Por falar nisso, como a Sanepar cortou a água por falta de pagamento, abriram um poço artesiano que atende em conta-gotas ao complexo poliesportivo. Enquanto isso, já sobe a 144 o número de protestos de títulos contra a Federação Paranaense de Futebol.
Funcionários da FPF não recebem desde julho e no sábado passado foi dado um vale de R$ 100 para cada um. Na segunda-feira, 32 peões ficaram desde às 4 da tarde aguardando o presidente Onaireves para receber e o conseguiram.
BIZARRICE Observação do advogado e anarquista Elísio Marques: A greve dos funcionários só emplaca se houver sintonia entre as tendências ‘‘Vertente do Bife Sujo’’ e ‘‘Porão do Bar do Hermes’’.
SPRAY Havia um esforço deliberado no movimento de ontem para criar desgaste semelhante ao sofrido por Álvaro Dias na repressão aos professores.- Pelo jeito, nem o governo e muito menos os grevistas sabem inovar: estes forçaram as portas do Palácio Iguaçu e aquele chamou a PM.- Os funcionários sabiam que não há dinheiro, que o governo não poderia prometer nada, daí o papo, ainda que cordial, entre a comissão e o governador ser inútil. Como dizia Jean Paul Sartre ‘‘a vida é uma paixão inútil’’.- Servidores poderiam, pelo menos, arrancar o compromisso de que o décimo terceiro não atrasa. Já é um meio de pagar pelo menos parte das dívidas.- Por sinal que funcionários estão sendo pilhados por agiotas, alguns organizados em empresas. A ASPP, a APP, o IPE (se é que deixaram algum no ‘‘caixa’’) poderiam socorrer, desde que o Banestado ajudasse com taxas abaixo das vigorantes no mercado.- Mandado de segurança de Requião, com parecer favorável do Ministério Público, sobre os protocolos das montadoras, ficou para a sessão do dia 19 no Órgão Especial do TJ.- Antonio Azevedo venceu as eleições da ABAV-Paraná com 55% dos votos, contra 45% dados ao ex juiz de futebol e empresário do ramo, Eraldo Palmerini. Azevedo trouxe o congresso e exposição da ABAV nacional em 1999 para Curitiba, um dos maiores eventos em turismo.-
FOLCLORE Grupo de alvaristas (eles não são tantos quanto se imaginam) está no Bourbon Tower. No meio dos políticos pintam os craques do São Paulo. Carlos Nasser vaga entre as pessoas como lambari em água corrente e se encontra com o Ratinho da CNT, que está ao lado de um craque. Nasser, após abraçar Ratinho, o elogia por estar batendo papo com Dodô. O craque diz que é Denilson e o Ratinho corrige: ‘‘Naninho se enganou apenas em mais de US$ 25 milhões!’

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