Anedótico interativo

Na palestra que fiz em Paranaguá, semana passada, no encontro dos presidentes das subseções da OAB e dos seus conselheiros, busquei ressaltar os níveis de unidade cultural que atingimos. E mostrei que até no anedótico temos uma farta documentação para revelar que o bom humor permeia todo o Estado em que pese as suas peculiaridades. Óbvio que o Litoral, nesse campo, é mais rico, daí ter lembrado as façanhas do Joubert Gonzaga Vieira, prefeito de Antonina. Na paródia do presidente militar, o último deles, João Figueiredo, que havia lançado um programa de rádio e televisão ''O povo e o presidente'', Joubert fazia na difusora local ''O povo e o prefeito''. Todo o santo dia a arenga sobre as questões municipais e o que o burgomestre fazia. No Dia de Finados, sem sutileza alguma, ele explicou por que mandara cascalhar e melhorar a ladeira que conduzia ao cemitério. ''Se eu não fizesse isso, vocês imaginaram o que povo, pisando na lama e tropeçando, diria de minha santa mãe que está lá enterrada?''


O MURAL Do norte lembrei de duas coisas importantes do ponto de vista cultural e com muita inventividade, mas que também não deixam de ter um tom anedótico: uma de Jacarezinho, outra de Londrina. No tempo em que a cidade do norte pioneiro era um pólo fortíssimo, o reacionaríssimo Dom Geraldo Sigaud, bispo, que lançaria na véspera da queda de Jango, junto com Dom Castro Mayer, a catilinária da TFP contra o reformismo (''Reforma Agrária, Questão de Consciência''), autorizou seu irmão, o pintor Sigaud, notório esquerdista, a pintar a via-crúcis da matriz. E ele o fez com tanto engenho e arte, obra hoje integrante do patrimônio histórico, incluindo na dramatização pictórica figuras da política local travestidos de legionários romanos, membros do Sinédrio, flageladores como o prefeito, o delegado de polícia, presidente da Câmara Municipal, juiz de Direito, alguns vereadores.
Semana passada o jornalista Élio Gaspari, em sua página, referiu-se ao fato de Cândido Portinari, notoriamente esquerdista, haver colocado na decoração da Pampulha o rosto de Luis Carlos Prestes em lugar de Cristo.

LATINÓRIO De Londrina a passagem é do médico Justiniano Clímaco da Silva, recentemente falecido, deputado constituinte de 1947. Discutia-se o preâmbulo da Carta Magna estadual e houve aquele tradicional bate-boca entre agnósticos como o admirável Vieira Neto, comuna, e Laertes de Macedo Munhoz, liberal, se fariam ou não a invocação à proteção de Deus. Foi quando o médico e deputado, que surpreendia por ser negro, fato raro na história parlamentar (o que merecia um estudo de avaliação), fez a defesa da referência deísta e discursando em latim clássico na ordem indireta como manda o figurino. Quem me contou a passagem foi o advogado, ex-deputado Alvaro Dirceu Viana, de Paranaguá, que estava presente à cena. Relata mais que Laertes Munhoz pediu um aparte em latim e foi advertido pelo orador que a frase não estava corretamente construída.

MANECADAS Histórias do ponta-grossense Manoel Ribas, tido por alguns como gaúcho porque dirigiu a cooperativa ferroviária de Santa Maria e lá foi conhecido por Getúlio Vargas, são inúmeras. Uma das melhores é aquela sobre o homem humilde que estava à frente do Palácio São Francisco para falar com o ''presidente''. Manoel Ribas que olhava as flores do jardim se aproximou do homem e perguntou por que desejava tanto falar com o interventor. Aí o homem desfiou seu drama: suas terras ameaçadas por grileiros com forte proteção (como sempre) dos políticos. E foi tão veemente que Maneco Facão perguntou:''e se ele não o atender?''. Resposta: ''nesse caso mando ele pra pqp''.
Aberto o expediente, o homem foi enfrentando as dependências burocráticas até chegar, depois de mais de uma hora, na ante-sala do gabinete. O interventor o recebeu com atenção e ele teve que repetir toda história. Após ouvir com máxima atenção o drama do munícipe revoltado, Maneco Facão entrou duro: ''E se eu não o atender o que senhor fará?'' O acaboclado tascou de bate-pronto: ''Nesse caso fica assim como nós combinamos lá embaixo...''
Essa anedota visava destacar o respeito, num tempo de aberto puxa-saquismo até estimulado pela ditadura, que a rude figura tinha pelas pessoas sinceras e mais naturais e corajosas.
Outra, muito boa, é a da Lapa. O Paraná aquele tempo acordava mais cedo com receio das ''incertas'' do interventor. Pois a brava Lapa resistia: não achou um só homem público (o da coletoria, da unidade sanitária, da polícia) em seu posto e fez a declaração que até hoje melindra o pessoal da terra: ''Lapa, berço de heróis, terra de vagabundos!''

FUTEBOL Na bola é que se sente a integração: o Coritiba levou um baile do Apucarana e não deixou por menos ao contratar o ponta direita Passarinho. Um dia, jogando em Paranaguá, o atacante esgotava seu repertório de dribles no lateral esquerdo do Rio Branco: entre as pernas, o drible da vaca, chapéu, lençol e até ''verônicas'', movimento das touradas. O lateral aterrou o ponta e ele rolava pelo gramado. O público aplaudia freneticamente, afinal drible demais é desonra. Como Passarinho não se recuperava, de repente a galera se ligou que ele podia ter quebrado a perna. Um momento longo de purgações de culpa, remorsos shakespeareanos, levou ao silêncio, quebrado por uma falinha cantada, típica de parnanguarinha: ''Sopra o cuzinho dele que ele levanta!'' E isso, como destaquei, longe de significar uma grosseria era puro lirismo dos tempos em que os meninos matavam sabiás e saíras com seus estilingues. Quando um ameaçava reanimar eles separavam as penas da bundinha e assopravam para que o pássaro, como a Fênix mitológica, alçasse aos céus como um islâmico certo do seu vôo à eternidade junto a Alá, aos anjos e ao profeta infalível.


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