Luiz Geraldo Mazza
Um novo Dom Quixote
Não esperavam os participantes do encontro de empresas de telecomunicação no Hotel Rayon, ontem, que de repente, ainda que por alguns momentos, aquilo se transformasse numa autêntica ''brain storming'', num psicodrama interessante, quase um ''jogo da verdade'', quando o neurocirurgião Affonso Antoniuk, ao apartear um palestrante, levantasse a possibilidade de os telefones celulares e as antenas serem fonte de doenças, inclusive câncer, de origem magnética.
Há muito o médico, que detém uma das mais elevadas casuísticas nos vários campos da sua especialidade, entre os quais o da cisticercose cerebral, da qual se transformou num pregador na parte preventiva, mobilizando grupos multidisciplinares e produzindo vídeos, vem manifestando preocupação quanto à poluição magnética. É claro que isso desperta o maior conflito, pois se dá no momento de ''pico'' das vendas dos celulares, um produto quase universalizado junto até mesmo às classes populares e também com as frequentes resistências de cidadãos quanto à montagem das antenas.
A sociedade que está emergindo do processo de atraso (levamos décadas para estabelecer normas mínimas de alertamento quanto ao tabagismo), em que sempre estivemos mergulhados, vai tornar rotineiras situações como a criada ontem pelo médico. Ele compara essa preocupação com a que tem, ao longo de sua carreira e em função das numerosas cirurgias, revelado relativamente ao caso da cisticercose cerebral. Com um detalhe: nessa situação (uma zoonose produzida por carne infectada por cisticercos de porco ou de boi) somente a profilaxia é capaz de conter novos registros da doença e, como afirma deter razões muito sérias para acreditar na possibilidade do câncer vir por meio desse tipo de agressão magnética, no dos telefones celulares e respectivas antenas, só o uso de cautelas especiais evitaria o problema. Cita em socorro de sua tese notas de vários congressos internacionais, a adoção de salvaguardas em alguns países como a Austrália quanto ao uso dos celulares pelas crianças e aquilo que já estaria claramente demonstrado com equipamentos como o forno microondas.
Está aí o Dom Quixote, que anos passados mobilizou a sociedade contra a farsa que pretendia (promoção do Banco Itaú e Prefeitura de Curitiba) fazer do Jardim Botânico o símbolo da cidade impondo em contraposição o prédio da Universidade Federal num plebiscito que o oficialismo queria conduzir, e que agora se empenha como o cavaleiro de Cervantes a brigar não contra moinhos de vento, mas equipamentos ultramodernos da engenharia eletrônica.
Lembra, inclusive, o que se dá com a Rádio Vaticano, cujas antenas provocaram câncer numa região e cujo problema tramita na Justiça. As emissões podem levar além da fé religiosa, problemas dessa ordem. Bastante didático.
BIZARRICE
A prefeitura da Capital para vender o peixe do novo IPTU compara a taxação daqui com a de Foz de Iguaçu e Londrina para sugerir que a da terra é mais barata. Não é bem assim e os chios já começaram. A Dama de Ferro, a dura Margareth Tatcher, caiu na Inglaterra por causa da alta de um tributo semelhante e ela não tinha a suspeita do caixa 2.
AXIOMA Lerner saiu-se bem nas perguntas do ''Show do Milhão'': respondeu corretamente sobre tipos de nuvens (cumulus) e o pai da Genética (Mendel). Isso não aconteceu com Garotinho, Maluf e Aloízio Mercadante, este com mancada em aritmética. No governo ele pega nota baixa, mas nesse caso foi bem. Quando Lerner falou do formato das nuvens um oposicionista cochichou: ''cumulus'' é o governo dele.
GLOSA Que tal agora políticos irem para ''Casa dos Artistas'' e ''No Limite''?
Numa das sessões recentes um casal teria se masturbado sob os lençóis. Ou ao menos sugerido. Nós merecemos isso: para quem gosta de jiló, como prelecionava o Stanislaw Ponte Preta, urubu é colibri.
EPIGRAMA Pelo que se vê nos programas de tevê das redes nacionais o conceito de privacidade mudou: hoje significa estar na privada e sendo frestado. Mudar de canal nem sempre é como puxar a descarga, já que a concorrência é pesada.
SPRAY Um fato inusitado em termos processuais ontem foi o depoimento do taxista Izaías Caetano Bezerra, no Instituto de Criminalística, que diz ter testemunhado o acidente do sobrinho do senador Requião, feito sob hipnose. Dado novo: teria visto quatro rapazes dentro do automóvel que causou o acidente.- Obviamente haverá, neste caso, forte exploração política, o que não é recomendável num inquérito com um mínimo de seriedade como se deu no governo Requião, quando o seu secretário de Segurança, Favetti, delegado da Polícia Federal, no caso das bruxarias de Guaratuba, afirmou que se a Justiça desse habeas-corpus aos acusados ele os entregaria em praça pública.- O ideal seria que os políticos soubessem tirar partido, de uma forma serena, de fatos policiais. Um exemplo o de Ney Braga que se consagrou como Chefe de Polícia quando os delegados resolveram o primeiro sequestro de taxista, cujo corpo foi lançado na Represa Vossoroca, prendendo o autor.- Outro, o da solução do sequestro de família de um empresário em Marechal Cândido Rondon na primeira gestão de Lerner.- Conselho: não façam com a família do senador o que não gostariam que se desse com a própria.-
FOLCLORE O ''Show do Milhão'' com políticos pega mal pra muita gente: Garotinho não conseguiu decifrar a composição da água (e não era a daqui que tem H2O e algas) e o Mercadante, economista, cometeu erro primário ao não saber qual a sexagésima parte de um minuto. Levou vários segundos e acabou se enganando.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.





