São Paulo, terra da garoa



Antes a música que decantava São Paulo como a terra da garoa até podia ser entoada sem receio. Hoje não dá mais: a chuva fina de hoje se transforma em pouco tempo num dilúvio, uma tragédia banalizada como a violência. O Paraná se separou de São Paulo em 1853 e só agora está obtendo a sua autonomia no campo cultural e de certa forma no econômico, rompida que está, com as ações que vêm desde Ney Braga e hoje deflagradas por Lerner, a nossa dependência como economia de complementaridade à bandeirante.
Volta e meia São Paulo, maior beneficiário de todos os cartórios desse País e que permitiram a sua hegemonia industrial, irrita-se com o Paraná por causa da propalada ''guerra fiscal'' que afinal todos praticam em maior ou em menor intensidade. Ninguém dentre as unidades federativas foi tão privilegiado com ações no campo fiscal e político que permitiram o domínio paulista.
Frequentemente valem-se da mídia, até no campo esportivo, para reduzir nossa expressão. Foi o caso, ontem, de texto na ''Folha de S.Paulo'', no caderno de Esportes, sob o título ''É a menor final do Brasil'' apreciando aspectos de renda, público e nível técnico do jogo São Caetano " Atlético Paranaense.

''MANCADAS'' Lembro de algumas ''mancadas'' clássicas dessa indisposição com a ex-Quinta Comarca: em 1967, pouco depois de o Brasil dar vexame na Copa da Inglaterra, a seleção húngara, que havia derrotado os ''canarinhos'' por 3 a 1, veio aqui jogar com o Coritiba. Fervilharam os comentários de que era uma temeridade botar em risco o prestígio do futebol brasileiro com um time de expressão menor e isso em colunas editoriais. Pois bem: no ''Belfort Duarte'', que ainda não mudara para ''Couto Pereira'', os coxas venceram por 1 a 0, gol do Oromar, que fez uma jogada no estilo Garrincha driblando a defesa magiar e metendo a bola nas redes.
Se não me engano, também ''O Estadão'' desqualificou o cavalo Duraque na disputa do Grande Prêmio Brasil e que era de criação paranaense. Pois com todas as observações ''técnicas'', o animal da terra venceu.

SUAVE PROVINCIANICE Aqui temos horror de passarmos por provincianos e nada mais provinciano, ainda que ocorrendo na megalópole, do que atitudes como essas. Quando o Coritiba disputou, em 85, a final com o Bangu, com quase 100 mil pessoas no Maracanã, tentou-se igualmente subestimar o feito. Dava impressão de tudo devidamente armado para uma final entre Atlético Mineiro e Internacional, times que o Coritiba em 73 esmagara junto com Corinthians e Flamengo, na conquista do Torneio do Povo. Pois o Bangu superou o Inter nas duas partidas e o coxa venceu em Curitiba o ''galo'' por 1 a 0 e empatou sem gol no Mineirão.
Cariocas uniram todas as torcidas para apoiar o Bangu, provincianice bem dirigida, já que não se tratava de nenhum dos ''grandes'', o que poderia gerar tensões como as que normalmente existem por aqui entre Coritiba e Atlético./ Sejamos provincianos sem medo. Apoiemos o Atlético, mesmo que seja terrível aguentar depois (especialmente para mim, ''coxa'') o festival de soberba, a chatice dos motejos e gozações.

BIZARRICE A carioquice é outra praga nacional. O Rio, que já foi a Capital do País e a da cultura e do futebol, bem como a dos intermediários financeiros com a Bolsa, não é nada, além da sede da Globo, o que a faz a Capital da indústria cultural. Certa ocasião, num torneio nacional, o Atlético enfrentava o América e o comentarista Márcio Guedes, da Vênus Platinada, falou com tanto ardor e exagero contra os paranaenses subestimando-os que foi obrigado, dada a reação provocada, a pedir desculpas.

AXIOMA Espera-se que Jaime Lerner pelo menos no ''Show do Milhão'' vire um finalista como o Atlético Paranaense porque em Ibope só ganha do ''Truta'' gaúcho, Olívio Dutra, assim chamado no código dos contraventores.

GLOSA Romper com Lerner, até no futebol, pelo jeito dá certo: Mário Celso Petraglia chega ao ponto máximo e Giovani Gionédis dirige o Coritiba.

EPIGRAMA Estar com o governo nem sempre é negativo: a Agência de Notícias Cone Sul, que dá cobertura simpática ao situacionismo, teve anteontem mais de 1.300 acessos na Internet com um incremento de quase 30% sobre a média normal.

SOUZA NAVES Quarenta e dois anos da morte de Abilon de Souza Naves serão celebrados hoje na sede do PDT pela ''Juventude Socialista'' às 18 horas com palestra sobre o trabalhismo histórico a cargo de Sílvio Sebastiani. Souza Neves venceria facilmente as eleições para governador em 1960. Com ou sem dobradinha com Jânio, como Ney Braga fez, venceria. Nelson Maculan que o substituiu perdeu por excesso de caráter: não admitiu a aproximação com Jânio como a UDN do norte paranaense queria e ficou com Lott, duro de carregar.

FOLCLORE Enquanto Lerner gravava no SBT o ''Show do Milhão'' a sua base aliada voltava a negar fogo na Assembléia Legislativa e ameaçava fazê-lo de novo na hora de votar o aumento do ICMS para acertar problemas de caixa. Aqui no Paraná, na dúvida, Lerner não pode sequer consultar as cartas que estão marcadas.

CROMO Michele: nos seus verdes anos, o nosso carinho sazonado.

AFORÍSTICO Vocês imaginaram se no Paraná existisse uma oposição competente e dedicada o que poderia acontecer? Ela vive dos gols contra do governo.


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