O anedotário litorâneo

Estive neste fim de semana na minha terra, Paranaguá, junto a um encontro da Ordem dos Advogados do Brasil-PR de suas respectivas secções municipais para avaliação dos problemas comuns. Fui convidado para uma palestra e nos contatos havidos lembrei de uma peculiaridade do litorâneo e, em especial, do parnanguara: a capacidade incrível de apelidar pessoas e às vezes na figuração caricatural ir além do físico para entrar na avaliação do espírito.
O escritor Wilson Rio Apa, que sempre foi um diferenciado voltado ao convívio com as comunidades de pescadores, um dia apareceu na Estação Ferroviária com os cabelos longos e a barba imensa, aquele tempo uma novidade, e ainda por cima usando a camisa por fora da calça, o ''Jean Sablon'' e isso muito antes de Jânio Quadros tentar imitá-lo na Presidência da República do Brasil com a indumentária indiana. Rio Apa estava com a esposa e os dois filhos e mal chegou na plataforma os carregadores discutiam de quem era a bagagem. Aí com a fala cantada, típica da terra, um deles tascou: ''É do Jesus Cristo em férias!''

UMA LISTA DE FONES Vários ensaios e monografias já foram escritos sobre o assunto. Como fiquei muito tempo sem ir a Paranaguá impressionei-me quando, ao pedir informações a uma tia sobre pessoas conhecidas, ela só se referia pelo apelido, o que me levou a considerar que a cidade poderia, perfeitamente, fazer lista telefônica só na base da alcunha.
Hoje muitas dessas caricaturas estariam no index das proibições pela mania da moda em torno do ''politicamente correto'' especialmente nos casos de problemas físicos. Osvaldo Nascimento, poeta e jornalista, tinha o hábito de ao andar na rua quase girando o corpo era o ''Garrafa Nágua''. Quem já viu uma garrafa boiando no Rio Itiberê percebe a força descritiva da figuração. Havia os pesados em cima de defeitos físicos como ''Apaga Rastro'' para a pessoa que tinha uma das pernas fora de controle motor e que parecia efetivamente estar apagando a marca de suas pegadas. Feitos de uma forma tão natural, os apelidos eram aceitos e não produziam a baixa estima para os nominados.
Não é sem sentido a idéia da lista de telefones, embora as massas migrantes que se deslocaram nem sempre cultuem o hábito.

ROBÔ CURIOSO No fim dos anos cinquenta eram comuns as manifestações contra o problema da falta de energia em Paranaguá e em várias cidades do Estado e que só melhoraria com o advento do governo Ney Braga. O fotógrafo Sérgio Matulevicius foi escalado pela revista ''Panorama'' para documentar o quebra-quebra por causa da falta de luz. Viajou de trem, em vagão de segunda, num toco duro e não percebeu que na posição em que estava suas pernas ficaram ''adormecidas'' por causa da postura que prejudicava a circulação do sangue. Com o seu rosto redondíssimo, cara de estrangeiro, saiu da Estação Ferroviária e batia os pés no chão para recuperar a circulação e ao perguntar onde era o agito levou o apelido de saída: ''Robô curioso''. Robô porque batendo pausadamente os pés no chão lembrava precisamente a máquina eletrônica e desajeitada.

UNIVERSAIS Há situações de apelidos universalizadas. A mesma história é dada como tendo ocorrido em diversos pontos do litoral brasileiro. Como a celebrada do ''Cuco'': o cidadão que chegou em Paranaguá (Itajaí, Antonina, Floripa ou São Francisco) e que fez uma aposta que não levaria apelido. Aí se internou num hotel (um dos relatos fala de um em que as janelas davam para a Praça Fernando Amaro) e de lá não saía até para não ser visto e de vez em quando tirava a cabeça, cautelosamente, pra fora e isso foi o suficiente para ser batizado como ''Cuco'', aquele passarinho do relógio. Lembro que o apelidado se irritou especialmente quando num dos carnavais antigos houve a marchinha: ''Cuco, cuco, cuco// o passarinho do relógio está maluco// ainda não é hora do batente// e ele fica impertinente// acordando toda gente// fazendo cuco, cuco, cuco!//'' Mais um motivo, fortíssimo, porque muito repetido, para lembrar do apelido.
Outra ''universalizada'' é a do ''Mão de gengibre''. Um burocrata federal veio assumir um posto na área fazendária ou previdenciária. E tinha uma espécie de nódulo numa das mãos que procurava desesperadamente ocultar. Veio de navio e nem havia ainda desembarcado quando portuários o avistaram e já lhe tascaram o novo batismo: ''Mão de gengibre''.
E assim são outros apelidos como Mãe do Diabo (Aurene, até hoje trabalhando no Porto), Miguel Picega, Maria Gordinha, Feijão Cavalo, Chico Louco, Reboco de igreja velha (um portador de bexigas no rosto). O delegado de polícia Nilo, magrinho e bom de briga, era e é o ''Perigo Fino''. O coronel Alípio Ayres de Carvalho, genuíno introdutor do Paraná nas técnicas de planejamento, e que tinha um pensamento generalista em função das atividades que exercia em meio a grupos multidisciplinares como coordenador, num dia falava com tanta e tão apropriada desenvoltura por assuntos os mais variados que Amintas Pinho, um parnanguara da gema, deu-lhe o apelido de ''Professor de Deus''.

OLHO DE GAROUPA O advogado Francisco Deliberador, ex-prefeito de Ibiporã, é nomeado pelos governos de oposição no final do regime militar para gerir o Porto de Paranaguá, área que boa parte da elite parnanguara considerava monopólio seu, o que nem sempre deu certo, embora dois dos mais fortes tenham sido os engenheiros da terra Alfredo Budant e Luis Antonio Pinho. Pois o Chico era um durão, como o demonstraria também no comando do Detran, e como tinha o globo ocular alargado numa das vistas foi batizado de ''Olho de garoupa''.


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

mockup