Uma história de desníveis

O Paraná, de certa forma, segue o modelo brasileiro de acirramento de desníveis regionais e isso é histórico. E tanto que várias vezes tivemos ações como a que defendia a criação do Estado do Paranapanema, essa mais antiga, como a que pleiteava a do Estado do Iguaçu, tentando empolgar os colonos de origem gaúcha e catarinense.
Quando da deflagração do novo perfil econômico do Paraná, por Jaime Lerner, advertimos por esse jornal e pela Rádio CBN-Curitiba que havia o risco de aprofundar desníveis uma orientação geopolítica que ratificasse o domínio dos eixos atuais, especialmente o existente entre a Capital e Ponta Grossa. Como se não bastasse o fato de Araucária, ao nosso lado, ter um Distrito Industrial de porte e contando ainda com a presença física da Refinaria da Petrobras e da unidade de amônia e uréia, hoje privatizada, temos em Ponta Grossa o parque de oleaginosas, hoje praticamente zerado porque as multinacionais passaram a operar como exportadoras de grãos em função da Lei Kandir e que pode retomar as suas ações se a estratégia do governo federal mudar.
O fato de o agronegócio especialmente ter saído à frente dos indicadores e mostrando ainda vitalidade maior no interior seja na geração de empregos e de renda é o dado positivo dos últimos acontecimentos. Investimentos como o da Hexal, líder mundial na produção de remédios genéricos, em Cambé, reforçam o sentido de uma preocupação que não constava no início das operações quando se percebia que a Região Metropolitana, por fatores óbvios entre os quais o da infra-estrutura implantada e proximidade dos portos, predominava.
Há muito se fala por aqui - e isso consta amiúde nas manifestações de Jaime Lerner - em estratégia e logística, coisas que não se reduzem a esse diagrama, pelo qual o governador é obcecado, e que fazia parte dos seus desenhos quase garatujados em campanha eleitoral, dos tais Anéis de Integração que acabaram justificando um dos flagelos da gestão atual, o pedágio. Que essas vias são relevantes nem se discute, mas há rala credibilidade de que venham a funcionar efetivamente até pelo fato inicial daquele corte oportunista nas tarifas em 50% para não atrapalhar a reeleição e que levou à presunção de que se Lerner fazia isso é porque sabia que as empresas concessionárias poderiam suportar.
O planejamento hoje não é como no tempo de Ney Braga e Canet Júnior em que havia estudos rigorosos da área e menos dispersão que agora, onde uma pasta como a de Desenvolvimento Urbano, de certa forma, assume essa função, ainda que voltada para aspectos setoriais. Não há uma articulação entre secretarias visando um objetivo comum. A produção de estudos e pesquisas caiu a níveis intoleráveis como se não fosse relevante trabalhar em indicadores regionais como faz o Rio Grande do Sul com muito maior competência e aplicação.
A perda de dinamismo no setentrião é uma evidência de que os desníveis podem se acentuar e isso não é bom para a unidade paranaense.
BIZARRICE O governador vai ao ''Show do Milhão''. Se ele pedir auxílio aos universitários - e se esses forem paranaenses - se negarão a responder e isso com a maior tranquilidade.
AXIOMA Quando o governador era atleticano (e também Londrina) o Coritiba foi campeão do Brasil em 85. Como o de agora é ''coxa'' a história pode repetir-se em favor do Atlético.
GLOSA Nessa questão do ICMS o governo está certo: deu isenções e reduções para beneficiar a cesta básica e precisa de compensações que recomponham a renda tributária. Não se faz omelete sem quebrar ovos. A oposição é contra não por amor ao povo, mas para ver o governo em saia-justa com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Aí também Lerner tem razão: se os seus antecessores tivessem um diploma como esse do ajuste fiscal obrigatório se sairiam mal.
Lembro claramente que no governo Alvaro Dias houve nada menos de três anos com Antecipação de Receita Orçamentária, o que hoje seria impraticável. Outra coisa: eles contavam com a inflação que permitia corrigir fluxos de caixa.
EPIGRAMA Se no futebol estamos para lá de bem representados pelo Atlético, na política não se pode deixar de reconhecer a forma como o senador paranaense Alvaro Dias se houve no comando da CPI. Sua atuação junto com o relator, homem articuladíssimo, Geraldo Althoff, foi muito boa. A aprovação do relatório por unanimidade mostra como num regime de opinião pública (a pressão da mídia, em especial a Rede Globo) a instituição parlamentar pode funcionar.
LITOKARETA De 4 a 6 de janeiro, 2002, Guaratuba fará um carnaval temporão denominado ''Litokareta'' com atrações como Araketu, Gang do samba, É o Tchan, Patchanka, Banda Eva e As Meninas. Só não ponham, por favor, a Banda de Guaratuba que aí tudo perde a graça.
GLOBO Por falar em Globo como a rede local mudou desde os episódios havidos em Londrina! A cobertura ampla à cada lance do caso Caixa 2 é uma evidência. Se assim não fosse a direção do telejornalismo, do Serrinha, seria acusada de ter sido ligada à GW que fazia as campanhas do sistema. Em política vale tudo e as suposições paranóicas, as mais desencontradas, são vistas como normais.
FOLCLORE Às vezes sentimos falta daquele tom sincero de governantes como Pedro Viriato Parigot de Souza que ao inaugurar o luxuoso prédio do Tribunal de Contas (anos depois teria um anexo maior ainda) indagou se no momento em que se decidiu aquela obra se era prioritária ou valeria pelo custo-benefício.
CROMO Nos teus olhos redescubro sempre um horizonte azul como num poema de Carlos Pena Filho.
AFORÍSTICO Quantos de governo e oposição figurariam bem como Papai Noel?

- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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