O mundo não acabou

A CLT foi flexibilizada, sai de um ''spa'' para uma academia de malhação e o mundo não vai acabar. Furar o pneu do carro do ministro Dornelles, parente de sangue de Getúlio Vargas, criador da CLT, não vai deter a marcha das coisas. Não há motivo para desespero porque ainda há outra instância (o Senado, que é uma câmara revisora e onde o PMBD está forte) e existe a circunstância de que a decisão será adotada em meio a uma campanha eleitoral.
As privatizações que vinham desde Collor e Itamar Franco e se acentuaram no governo Fernando Henrique prosseguem e o imaginário Apocalipse, anunciado pelas falanges nacionalistas, não aconteceu. O Estado Patrimonialista e Populista está se reciclando e com ele as pessoas. Pode-se contestar, de forma pontual e em termos de oportunidade, como é o caso da privatização da Copel em momento de crise de energia e inadequado até por imposição da recessão mundial e com reflexos internos, o ritmo dessa privatização, dessa tendência, que não é brasileira, de tornar o Estado leigo em áreas em que a dinâmica privada é a mais adequada.
Pode ser que passado o ciclo atual, o Estado provedor possa e deva recuperar parte dessas funções como já se deu anteriormente: a energia, por exemplo, era praticamente colocada aos cuidados das transnacionais e, no entanto, razões de cunho estratégico, impuseram o seu retorno às mãos estatais. O tom fanático dado ao debate sobre a CLT mostra que um dos maiores limites do PT e dos partidos ditos de esquerda vai ser mesmo a sua raiz corporativa. Resistência a privatizações será um tom dominante pelo fato de que a CUT tem força capilar no setor público. Aqui no Paraná, tirando os professores, que já não são a mesma força de anos anteriores, essa reação é nula. Quem mostrou mobilização foi justamente a Polícia Militar e agora os servidores das universidades.
Mas é um quadro como o paranaense que preocupa os sindicalistas. Eles acham que a flexibilização não favorece os menos organizados. Ora os sacoleiros de Foz do Iguaçu, um segmento da informalidade, foram até para as batalhas de rua e não poucas vezes. Numa sociedade democrática as tutelas perdem força, sejam as do trabalho ou do capital. Um sindicalismo capaz de reverter uma decisão de multinacional, a Volks, da demissão de 3 mil trabalhadores, negociando esse recuo na Alemanha, é fato significativo demais para ser subestimado.


BIZARRICE

Maquiar dados é uma das especialidades oficiais. No Paraná falamos muito em exportação, seus saltos, mas nada dizemos dos sobressaltos da importação que aumentou justamente em função do novo modelo da economia. Em 2000 a balança fechou deficitária: US$ 4,39 bi contra US$ 4,68 bi. Pode ser que neste ano melhore um pouco: US$ 4 bi contra US$ 3,9 bi, mas esses números são provisórios e estimados, o que indicaria queda em relação ao ano passado.


AXIOMA Eduardo Schneider levantou um problema: CPI elege governador? E lembra que Requião ficou sob o calor do spotlight quando relatou o caso dos títulos estaduais e que isso não o alavancou para a disputa com Lerner. Faz alerta para Alvaro Dias empolgado com a CPI do Futebol. Todavia um caixa 2 como esse do PFL bate qualquer CPI.


GLOSA Um dos entraves das contas públicas do Paraná ainda é o ''mico'' dos títulos estaduais do Banestado assumido pela Copel. E a CPI dos Precatórios, embora regida pelo senador paranaense e com atuação veemente de Esperidião Amin e Kleinubing, senadores empenhados na derrubada do governador de Santa Catarina, nada pescou de expressivo sobre o caso aqui da terra.


EPIGRAMA Professores voltaram ao ''papelão'' de cercar a casa do governador. É o mesmo que alunos, inconformados com notas baixas, cercarem a casa da professora. É o embrião do terror, mesmo que se argumente que segurar o vale- transporte também é uma forma de terrorismo oficial.


SPRAY O desembargador Jesus Sarrão, analisando o processo da greve crônica dos professores e funcionários das universidades estaduais e considerando-a abusiva, aumentou a multa diária de R$ 1,5 mil para R$ 15 mil para cada um dos sete sindicatos das categorias. Agora o grevista vai ter que invocar o outro Jesus, o filho de Deus, enquanto ''crucifica'' o xará em suas críticas.- Vejam como o desembargador foi suave: a Procuradoria-Geral do Estado pedia a multa de R$ 150 mil por dia. Não passou de dez por cento.- A APP teve uma importante vitória ao obter liminar suspendendo resolução da Secretaria de Educação que fazia modificações no ensino noturno. A preocupação da APP é clara: todo o esforço de redução de custos implica em desfalque de pessoal e reduz o corpo associativo e contributivo.- Como Cassio Taniguchi reafirmou que vai até o fim do seu mandato (se a Justiça não decidir o contrário), a base governista precisa treinar melhor o único dos seus integrantes com cara de novidade, Beto Richa.- Há uma tendência para forçar a barra no caso do caixa 2 sugerindo que há dinheiro público na parada. No de Belinati havia. Nesse só suposição.-


FOLCLORE Segundo estudo do setor de Engenharia Química da Universidade Federal, a água de Curitiba teria 15 vezes mais coliformes fecais e três vezes mais trialometano. Sugere-se que Lerner fale sobre isso em Washington. Dá para embalar um copo dágua com papel higiênico. Pode-se dizer também que se o laudo é verdadeiro essa água nunca foi tão privada quanto agora.


CROMO E essa flor seca, quase feita pergaminho, no interior de um livro que há muito não folheava me traz mensagens de um tempo adolescente.


AFORÍSTICO Lerner em Washington, Emília em Cambé: governo itinerante.


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