Luiz Geraldo Mazza
Eleitoralismo inócuo
Participei nos anos sessenta das campanhas sobre reforma universitária nas quais se defendia a representação dos corpos discente e docente e também do funcional em gestão eleita e compartilhada. Esse tipo de procedimento, que parecia ser a salvação do terceiro grau, em nada melhorou a gestão escolar e conduziu ao pior e mais execrado dos populismos, o assembleísmo, à universidade.
Uma das nossas ilusões, desde os anos cinquenta, era o de que remover as velharias como a vitaliciedade da cátedra, somada ao processo eletivo, iria democratizar a área. Pergunta-se: há esse tipo de proposta nos países civilizados e com tradição científica e acadêmica? Não. Aliás esse batismo das urnas, dado como indispensável e como elemento depurador, simplesmente ajuda a minar a hierarquia indispensável em qualquer organização do gênero.
A universidade não melhorou com a eleição. Embora não se possa dizer que o sistema anterior de inteira deliberação do governo provedor seja bom, dá para perceber que os processos eletivos simplesmente conseguiram criar um tipo de consulado com ''racha'' de postos entre os grupos integrantes da chapa tida como vitoriosa. No pleito atual da Universidade Federal do Paraná há coisas incríveis como o fato de as duas chapas disputantes se dizerem de oposição, o que é apropriado ao oportunismo e à demagogia, pelo significado que isso tem no processo, já que se torna inevitável fazer analogia entre o que se dá ali e no País, tudo recheado com exploração ideológica de compota, quando os seus cabeças integram o corpo dirigente do sistema, portanto da reitoria atual.
O curioso é que o papo mais comum nessas ocasiões - e isso alcança todos os envolvidos - é sobre a ''função social da universidade'' ou a sua inserção na realidade, tudo permeado em torno de clichês sobre ética e cidadania. Já pela demagogia da competição percebe-se que ela em nada difere do processo eleitoral maior em tudo o que tem de vicioso, de farsa e manipulação.
Era de esperar-se que tal processo eleitoral ao menos ganhasse uma dimensão menos comprometida, menos degradada. No fundo não difere em nada do que se dá num plano menor nas eleições de entidades estudantis, da UNE à UPE, alcançando igualmente os diretórios acadêmicos.
CONGRESSOS Quando dos tempos universitários fazia uma dobradinha com o meu colega, o criminalista Élio Narézi, falecido nesta semana. Uma ocasião houve um congresso extraordinário da UPE no salão da Escola de Engenharia e como eu trabalhava na Federação de Futebol então dirigida pelo mestre de direito penal Ildefonso Marques (vejam o padrão dos que se dedicavam à área na época e lembraria outros como Pedro Stenghel Guimarães, Gêneris e Vectogírio Calvo, Plínio Marinoni) não pude fazer a dupla.
Preocupado com o que aconteceria fui tranquilizado por Narézi que me garantiu que levantaria uma preliminar da ilegalidade da convocação e que dissolveria a assembléia. Incrédulo, fui trabalhar, mas na volta passei pelo local e percebi que as luzes estavam apagadas. Procurei o bedel e ele, com ar espantado, revelava que a massa ululante e radicalizada fora dominada pelo baixinho e de voz forte. E isso num tempo em que os mais agudos das assembléias eram os estudantes de Engenharia. Inimaginável que com retórica e argumentos em cima de um regimento interno se conseguisse dissolver aquela fúria.
FUTEBOL CORTADO Uma das coisas mais sensacionais que vi em futebol foi num torneio triangular entre Coritiba, Flamengo e Portuguesa de Desportos. Num dos jogos a cerração no Durival de Brito era de lascar e cobria inteiramente as sociais, o que levava a se rolar de dar risada o pessoal das gerais. Até que acionada pelo vento, a cerração mudou de lugar e foi cobrir a visão do pessoal da galera. A social passou a rir. Resultado: o jogo foi interrompido e teve a continuidade no dia seguinte com portões abertos pela manhã.
CRUELDADE Um dos divertimentos no pátio de manobras da Rede Ferroviária que ficava atrás do Estádio Durival de Brito e Silva estava na movimentação das composições que puxavam os vagões onde estavam as pessoas que assistiam ao jogo sem pagar de um lugar privilegiado e alto. Não poucas vezes, apavorado, tive que pular de cima do vagão, enquanto os que viam a cena lá de dentro do campo se matavam de rir como se estivessem vendo um filme dos Três Patetas. E havia muito mais de três. Éramos dezenas.
A MORTE Há o caso da morte do jogador no campo como o de Babão no ''Joaquim Américo'', quebra de espinha, ou o de Valtencir no ''Durival de Brito'' em choque involuntário com Nivaldo. Há, também, a do torcedor desatento como a ocorrida em 1968 quando o Atlético venceu o Santos por 3 a 2, ''Durival de Brito'' lotado, quando ele tentava se acomodar justamente nas proximidades de um fio de alta tensão que o eletrocutou. O público viu a vítima pender do ponto em que estava e verter o líquido do corpo. Mas o espetáculo precisava continuar e, de repente, o atacante Madureira, cedido ao Atlético pelo Ferroviário, hoje Paraná (o Coritiba cedeu o goleiro Célio e o lateral esquerdo Nilo que chegou ao escrete nacional), driblou toda a defesa santista, incluindo o excepcional Ramos Delgado, e marcou o gol da vitória. Voltávamos à vida, mas o travo daquela morte inesperada a todos atingia.
A AMNÉSIA Rossi, meia-direita, que foi campeão mundial pelo Santos, encerrou sua carreira no Coritiba. Brevelínio, meio redondo, movimentava-se com espantosa naturalidade e batia muito forte de fora da área. Deu títulos ao coxa, mas no dia de sua despedida entrou uniformizado no Couto Pereira e com as chuteiras nas mãos. Aí um torcedor ao meu lado perguntou: ''quem é o gorduchinho?'' Saí dali para não brigar com figura tão desligada.





