Uma vitória de Lerner



Se há um ponto em que não se pode negar a vitória de Jaime Lerner sobre as adversidades do seu governo é o do pagamento em dia, pelo menos, da massa de funcionários e que se prepara até para receber o 13º. Ora isso vem se dando ao longo dos sete anos quando as mais sombrias expectativas cercavam a sua gestão diante de sinais bastante concretos de inadimplência como o não-pagamento dos credores, o parcelamento do terço das férias do funcionalismo.
Anteontem, o governador foi à televisão (Band), em transmissão feita depois do maior jogo do ano no Brasil entre Grêmio e Flamengo, e garantiu que já há provisão para esses compromissos, o pagamento de dezembro e o 13º, e até tirou um sarro dos seus adversários que viveriam, segundo ele, profetizando a quebra estatal no atraso dos servidores. A folha de dezembro vai custar R$ 560 milhões, o que dá uma idéia da saúde financeira.
Se é verdade que Lerner submeteu o funcionalismo a um arrocho terrível, no qual os mais brabos e dispostos a manifestações, como professores e PMs, foram os que obtiveram os melhores reajustes é preciso lembrar que não demitiu ninguém, embora os aconselhamentos em sentido contrário. É verdade que boa parte dos barnabés está pendurada nas financeiras delinquentes que operam no mercado e para as quais o poder público deveria fixar parâmetros para reduzir a roubalheira em cima de pobres e famintos.
O contracheque é argumento mais forte do que o discurso safado da oposição, o de fazer média com a pobreza pela qual tem apreço meramente simbólico no seu trabalho de proselitismo e manipulação, no fundo um desprezo imenso pelos que finge defender. Pior seria se não saísse o pagamento de dezembro e o 13º. Aí, sorrindo com a desgraça dos servidores, mostraria a sua verdadeira face.
Com isso, pode-se concluir, o governo limpa o caminho para fazer a venda da Copel no momento que julgar mais adequado e prova a sua boa intenção de deixar a casa em ordem para os sucessores. Só que no caso de algumas montadoras o tal do ICMS represado sai apenas dentro de seis anos.
Se o governo vender a Copel, capitalizar o Fundo de Previdência e continuar recebendo investimentos no ano que vem pode até viabilizar um candidato em condições porque os postulantes se enquadram no grito veemente de Jamil Nakad pela circunstância elementar de serem sempre os mesmos. O cuidado é evitar que das fileiras oficiais também sejam os mesmos, o que seria insuportável.


BIZARRICE


Começou meia-noite o assalto legalizado nas rodovias com as tarifas renovadas do pedágio.


AXIOMA Cada dia uma nova ação popular contra o governo: uma contra o acerto com a empreiteira DM por causa da construção das cadeias, outra contra os acertos no Detran relativos ao sistema de informática. Licitação, que não é observada, é o anverso de ação lícita.


GLOSA Alvaristas dizem que a próxima pesquisa de opinião, depois que Alvaro Dias entrou no PDT, vai dar tamanha dianteira que o senador Roberto Requião se verá impelido a rever a idéia de disputar o governo. E apontam o fato de Requião viver criticando, quase diariamente, Alvaro Dias como a maior prova.


EPIGRAMA Quando a sociedade se identifica tão fortemente com o Bradock o que restabelece a afinidade perdida entre a polícia e o cidadão percebe-se que ela é predisposta a aceitar alguém com cara de mocinho para o governo. O pior é que todos se acham assim e não enxergam que engordam, envelhecem, enfeiam e na maioria dos casos emburrecem, ainda mais do que no estágio anterior.


SPRAY Na entrevista concedida a Band, Jaime Lerner falou tão bem da situação do Paraná que dava a impressão que se referia à Austrália e Nova Zelândia. - Não há quem o dirija adequadamente em televisão. Tergiversa, repete-se, gagueja. E segue alguns coleguinhas da área: não deixa o entrevistador perguntar. - Houve pontos positivos como o relativo à situação financeira, mas na parte política se saiu mal ao querer fazer ironia com os que o criticam. - Falou da mudança da economia, mas ocultou o fato de que o que está funcionando mesmo é a vocação da agroindústria. - Automotiva: as férias coletivas estão aí de novo, houve a prorrogação de prazo do ICMS e importamos demais peças e componentes, o que leva ao desequilíbrio da balança. - Um esquema federal em cima do deputado José Carlos Martinez pode criar dificuldades para manter a aliança PTB-PPS. - Alvaro Dias, candidato a presidente da República pelo PDT, eis uma hipótese possível em função das dificuldades de Brizola em encontrar alguém com o potencial do senador paranaense, isso porque está atritado com Lula, Itamar e Ciro. - Guerra contra a questão da informática no Detran já tem mais de uma ação no Judiciário: o contrato de R$ 110 milhões está suspenso. - Servidores da Celepar entraram na luta e alegam que ela poderia explorar a área e enviaram questionário com 50 itens que a diretoria da empresa não responde.


FOLCLORE Manchete do Estadão de ontem ''PIB surpreende com crescimento no 3º trimestre''. Agora o da ''Folha de S.Paulo'' sobre o mesmo assunto: ''Expansão econômica é a menor em 2 anos''. Um joga no otimismo, outro no pessimismo, que é uma forma de ideologia no Brasil. Pessimismo é progressismo?


CROMO O primeiro cigarro, o primeiro banho nu em rio, o primeiro beijo: não há como restabelecer sabores e odores como em Marcel Proust.


AFORÍSTICO Se o Paraná está mal, por que tantos querem governá-lo e salvá-lo?


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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