Demos, ontem, no Cemitério Municipal, as despedidas a Élio Narézi, o maior criminalista do Paraná e o mais combativo dos presidentes da OAB que tivemos. Está aí uma notícia em que não pode haver aquele distanciamento brechtiano tão reclamado no discurso do jornalismo objetivo: estudamos juntos para o ingresso na Universidade e uma de nossas convergências era o latim, nos textos de Marco Túlio Cícero e nas poesias de Virgílio. Essa vinculação nos levaria a um quase apuro nas definições do Direito Romano, viagens pelas Pandectas e por Ulpiano. E junto com isso o amor à literatura e à poesia. Élio declamava com expressão teatral (tivera uma passagem como locutor da Rádio Clube, na qual chegou até a animar programa de auditório) textos de Castro Alves e Augusto dos Anjos.
Ah essa incoercível afinidade com o pessimismo (Schopenhauer, Nietzch, Vargas Vila), uma atitude existencial tão parecida com a dos ''angry man'' que viriam mais de uma década após, o culto da zanga, a resistência aos conformismos, a perseguição de utopias. E no Café Para Todos, à noite, diante do chocolate e o Carlos Cavaco (um sanduíche bem mais sofisticado do que o misto quente dos nossos dias), ficávamos em grupos de três a cinco pessoas trocando poemas, ensaios e contos, uns mostrando-os com avidez, outros encabulados.
Nos debates do diretório e do centro cultural, em torno da pena de morte, aborto, eutanásia e até inseminação artificial, hipótese então não realizada, concursos de oratória e assembléias e congressos universitários estabelecemos uma relação de irmandade. Enquanto eu me encaminhava para o jornalismo, Élio, já no primeiro ano, ingressava no escritório do advogado Salvador de Maio, o melhor tribuno de júri daqueles tempos, e faria daquele nicho a base que o transformaria no grande penalista.
A retidão, o caráter, a firmeza, a independência e o talento, já revelados nas tensões acadêmicas, iriam marcar no exercício da profissão a figura forte e emblemática, discreta e pouco afeita à sedução da sociedade do espetáculo. A coragem e determinação, permanentes na sua ação como advogado, seriam marcantes na sua atuação como presidente da seccional da OAB ante os tempos de chumbo, especialmente na Conferência Nacional aqui realizada em 1972 que teria influência poderosa na reconstrução gradativa do Estado de Direito Democrático. O guerreiro descansa e deixa a marca forte da sua passagem. Fui seu companheiro de viagem, como colega, amigo fraterno e cliente. Poucos como ele são exemplos do engajamento visceral em valores normalmente abstratos e que mais pesam quando a própria existência é uma exposição permanente daquilo que se tem como desejável na perspectiva ética.

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