Acefalia generalizada
Depois de a sociedade assistir às cenas circenses dos sem-terra ocupando por meio ano o Centro Cívico num deboche aos três poderes de Estado e, em seguida, à selvageria da manifestação das esposas de policiais militares cercando os quartéis com uma astúcia não vista na guerra do Afeganistão, ontem as coisas culminaram com o espetáculo macabro de um cortejo funerário de um policial civil (morto por militares) conduzido pela categoria praticamente por todo o centro da cidade com escala diante do comando da PM e do Palácio Iguaçu.
Agiu bem o governo, embora quebrando todas as regras, em evitar que o trânsito ficasse a cargo de fardados o que poderia redundar em mortes. Na verdade estava colhendo a semeadura que pacientemente fez ao longo desses quase sete anos de gestão e que, no setor da segurança, é pura indigestão.
Nessas horas é que carecemos do filósofo, do homem que lida com axiologia (ciência do valor) e epistemologia (conhecimento). Vivemos um tempo de aberto transbordamento das liberdades numa ordem sem referenciais jurídicos que afinal normatizem conceitos e procedimentos. Esse pingue-pongue sobre se os professores das universidades devem ou não receber vencimentos, embora em greve (o que não está regulado constitucionalmente, dependente de legislação complementar e cujo princípio, ainda que relevante, não deve ser encarado como auto-aplicável ou ainda como cláusula pétrea), é uma evidência dessa anomia. Isso, inclusive, se transforma numa bateria infinita de novas tensões.
É primário saber que ao princípio da liberdade se opõe o da autoridade e que é dessa dialética que se constrói o Estado de Direito Democrático. Liberdade sem autoridade é baderna, anarquia, assembleísmo; autoridade sem liberdade é expressão de fascismo, negação do outro.
Um governante é também um magistrado, no conceito que os romanos aplicavam ao termo que alcançava dignatários da política, e por isso mesmo deve gerir com sabedoria os quadros conflitivos e buscar a indispensável acomodação com o encontro do consenso. Choques entre a polícia civil e a militar são comuns, mas ganharam ontem extrema teatralidade e na ante-sala da tragédia. Além de tudo há acusação de racismo (o que já vem ocorrendo com assustadora rotina no âmbito da Polícia Militar) e que apenas dá mais um tempero de irracionalidade à questão que apenas reafirma a incompetência e insensibilidade do governo.
BIZARRICE
Lerner quase deu uma de convidado trapalhão: foi ao Madalosso, em Santa Felicidade, para participar de um ato junto com a mulher, dona Fani, e errou de porta entrando no almoço do governador carioca, o Garotinho, com os evangélicos e socialistas. Antes isso do que sofrer acidente de trânsito como aquele de uma de suas viagens à Inglaterra.
AXIOMA ''Nóis (sic) pede justiça'' e ''Requião você está com as mão (sic) suja de sangue'' eram os dizeres de algumas das faixas da manifestação no local em que houve a tragédia com o sobrinho do senador e as duas mocinhas mortas. Sugere-se que se administre pastilhas e drágeas Cipro (do Pasquale) antes de escreverem essas palavras de ordem.
GLOSA O Bradock vai acabar se elegendo deputado pela resistência do pessoal do governo. Foi assim com o MST em Querência do Norte, depois em Rio Branco do Sul e agora em Laranjeiras do Sul. Vira delegado itinerante e transforma seu posto em palco eleitoral sem precisar fazer esforço.
Gosta de aparecer, mas isso não é crime. O Carvalhinho, da Fiep também, e dessa forma tem prestado bons serviços ao Paraná.
EPIGRAMA ''O Paraná passou de 5ª Comarca de São Paulo à sucursal de Santa Catarina.'' A provocação é do anarquista Elísio Marques e a encaminha para o tal Movimento Pró Paraná que presta almoço-homenagem ao ministro do STF, Ilmar Galvão, dia 7 no Madalosso. Na sobremesa, sutilmente, a criação do Tribunal Regional Federal de Curitiba, aspiração de todos.
Será que o apoio do senador Bornhausen não é decisivo para a causa?
SPRAY Curitiba viveu ontem a sensação extrema da acefalia governamental com o radicalismo das manifestações de policiais civis, justamente indignados com a morte de um colega, mas transbordando nos abusos perpetrados durante o cortejo fúnebre que parou a cidade.- Se a cada cena desse porte, como a morte de taxistas, houver a mesma loucura, Curitiba ficará ingovernável. Pelo jeito o governo não tem capacidade de dialogar nem com policiais civis ou militares, o que poderia ter evitado os exageros.- Já tivemos aqui, e o fato até hoje não tem esclarecimento, a execução de um cidadão que assassinara numa festa um policial civil. Praticado no interior da Delegacia de Furtos de Automóveis por vinte encapuzados.- Muito antes das revelações da CPI do Crime Organizado já havia registros, portanto, de patologias como também naquele caso, ainda neste governo, em que policiais militares agrediram policiais civis.- Há quem creia que depois dos eventos de ontem a unificação fica para o ano 3.010.- A pauta da sessão do Órgão Especial dia 30, desde às 9 horas, está um assombro: seis pedidos de intervenção, recursos ligados à licitação da Copel, pendências com universidades estaduais e previdência, nove recursos contra a Comissão de Concursos e Promoções do Tribunal de Justiça.-
FOLCLORE Qual desmanche tem mais força por aí: o do Estado, promovido de forma clara pelo governo ou o de automóveis, excepcional negócio.
CROMO E você como conserva essa aura permanente de primeira comunhão?
AFORÍSTICO Passadas as festas, aí, sim, o Lerner toma posse. É uma esperança.
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