Luiz Geraldo Mazza
Devem reunir-se hoje em Curitiba delegados regionais da Fundação Pedroso Horta, encarregada da doutrina do PMDB. Normalmente essas instâncias estão muito distantes do factual e do cotidiano da política, pois empenhadas no exame de epistemes (teoria do conhecimento) e teoria constituem uma espécie de contraponto à praxis partidária como guardiãs daquilo que deveria ser permanente para que as ações a ela se ajustassem e não o contrário.
Ora, se há um partido no Brasil em que desapareceu o sentido da doutrina é o PMDB porque, fruto histórico de um momento da transição, a cultura acumulada nesse período o revela como cada vez mais parecido com o PFL, o sucedâneo do PDS. Tanto que originariamente era uma frente que assimilava tendências com todos os matizes do espectro político, incluindo aquilo que foge a qualquer enquadramento, como essa maioria que tem horror à inteligência e que, por sua prática, lembra em tudo obediência àquela frase do alemão quando me falam em cultura, eu puxo o revólver. Na verdade, em função de certos executivos que operam na área, deveríamos puxar o revólver antes do que o talão de cheques, à simples nominação de quem atua no setor. O revólver ou o sôco inglês.
Já participei de reuniões em fundações como as do PMDB (numa moderei um debate sobre socialismo e liberalismo quando começava o modismo neoliberal, e noutra participei de um painel sobre a revolução dos cravos em Portugal e seus significados no Brasil) e do PFL (Fundação Tancredo Neves), esta bem mais abrangente e com mestres nacionais (Rouanet, Cláudio Lembo, Tércio Ferraz) e que tinham uma afluência em número de participantes, dada a relevância das questões abordadas, bastante ridícula, o que mostra enfim a incompatibilidade entre o apetite de participar do governo, desde que não se pense, e o estudo e a reflexão, pois para muitos o exercício é penoso demais.
Um dos cientistas políticos que participou da elaboração do programa do PMDB e, mais tarde, em busca de um aprisco mais confiável, o PDT, foi Mangabeira Unger, que andou escrevendo recentemente um livro a duas mãos com Ciro Gomes, esse Álvaro Dias intelectualizado do Nordeste.
O irônico do que ocorre no Brasil, e agora especificamente no Paraná com a propalada reengenharia partidária, é o restabelecimento de um quadro muito parecido com o dualismo artificioso do regime militar: de um lado, o predomínio do discurso neoliberal e de outro uma resistência débil que não sabe contraditar sem recorrer à axiologia do passado, nacionalismo, patrimonialismo ibérico, populismo. Lerner se voltar ao PFL ou mesmo para o PTB o comprova.
Para um político visceral reunião doutrinária é discutir a sexualidade dos anjos, uma frescura absoluta. E grande parte dos que delas participam apenas o fazem para sugerir que seu compromisso é com idéias, o que é dissimulador.
ECOCHATICES No Rio Piquiri, Mato Grosso, Pantanal, o tucunaré, que não é dali, passou a ser capturado em toneladas e com redes.- No Iguaçu, a última obra sobre a fauna, produzida há pouco tempo, estava por fora dos fatos recentes que indicam a existência do peixe-rei em Salto Santiago e do corimbatá e pacu, em Porto Amazonas.- No Cachoeira, onde é feita a descarga do Capivari, foram capturados exemplares de truta arco-íris e de porte.- O mais grave é que alguns curiosos lançaram exemplares do amazônico tucunaré em diversas das nossas represas.- E o jacaré do parque do Barigui, como pode sobreviver com tanta craca, restos fecais boiando, plástico?-
SINISTRA A esquerda ontem, em sua reunião, decidiu que deve lançar candidato próprio. Os que têm votos não querem ser boi de piranha como Emanuel Appel, Edésio Passos e Samek o foram no passado recente. O curioso é que apóiam o autoritarismo de Brizola, a forma como dirige o PDT, e discordam da maneira como Miguel Arraes o faz no PSB, exatamente igual.
TORTURA Brasil é diferente da Argentina. Mães da Plaza de Mayo recusaram indenização do governo por entenderem que o crime do regime é imprescritível. E muitas delas, esclareça-se, até precisariam disso para educar os filhos.
Exemplo de mulher no Brasil foi o de Clarice Herzog, que em plena ditadura exigiu na justiça reparação pelo assassinato de Vlado e com isso revelou que era possível um juiz atendê-la.
BIZARRICE Jaime Lerner como chupa-cabras é o emblema da campanha do dia 29 do funcionalismo. Anteontem, a propósito, comeu ovelhas em casa junto com o Aníbal Khury e os conselheiros Rafael Iatauro e Henrique Naigeboren.
SPRAY Luis Alberto Martins de Oliveira até agora não viu no contracheque a queda do redutor.- Pelo jeito, só levou a melhor o Anibelli.- Convicção é uma coisa rara: o deputado Trevisan estava relutando em completar o ritual da adesão ao PFL. Quem tem pressa come cru.- O português de Stephanes Júnior é tortuoso. A concordância é a obediência dos assessores.-
FOLCLORE Príncipes andaram por aqui. O Jota Carlos, repentista, fez a quadra: Para impor a monarquia// dificuldades não há//Assumam a hipocrisia// e entronem o Éfe Agá.(FH).
AFORÍSTICO Nos Jogos da Natureza, o Lerner poderia exibir os servidores estaduais como prova de que o jejum não mata. É a Mãe Natura testada em profundidade e numa competição árdua.





