Luiz Geraldo Mazza
Lerner, o retorno
Depois de um repouso justificável nos Esteites e que serve no caso (a visita ao segundo neto) como um refrigério da sensibilidade, o governador Jaime Lerner despressuriza e retorna ao vale de lágrimas da sua agitada, tensa e para lá de improfícua gestão. Frustrado com os embaraços surgidos no leilão da Copel, impostos pelo mercado e sua mão visível (a invisível, mas nem tanto, é dos que ganham nessas operações), retorna e, de saída, teve ontem um encontro Brasil-Alemanha que trouxe empresários daquele país, o vice-presidente Marco Maciel e o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Fernando Bezerra.
Junto com essa promoção houve a 28 Reunião da Comissão Brasil-Alemanha de Cooperação Econômica e com mostra de produtos e serviços dos dois países, o que tirará as atenções do governador para assuntos acabrunhantes como o da explosão e incêndio no Porto de Paranaguá (não esquecer que lá tivemos também o surto de cólera) e, especialmente, de um assunto para lá de desconfortável: a questão melindrosa do caixa 2 da campanha de Cassio Taniguchi e que parece botar a pique o candidato mais forte do situacionismo.
Mesmo assoberbado com a pauta de assuntos políticos que não é pequena numa hora em que a maioria da base parlamentar exige compensações e exibe vitalidade ao propor CPIs para atingir o senador Roberto Requião de forma retaliatória, um tema transbordará: como driblar os óbices até agora surgidos para colocar, outra vez na ordem do dia, a venda da Copel. Pelo que se vê e com as dificuldades crescentes de caixa e com a responsabilidade do pagamento do 13º salário do funcionalismo estadual sabe-se que esse gargalo de fim de ano não vai ser nada mole para o Palácio Iguaçu.
Não há como sustentar o bom humor quando as circunstâncias conspiram a não ser para os que adoram, como método, autoflagelar-se. Em tal quadro os êmulos do Chalaça, o áulico modelar do Brasil monárquico, ficam sem ação e apenas tentam sugerir que sofrem tanto ou até mais do que o idolatrado chefe.
TRAGÉDIA Do muro dos fundos da casa em que nasci em Paranaguá (que ficava diante do Cine Santa Helena) dava para ver as labaredas que tomavam conta do Porto. Essa situação persistiu por mais de uma semana e houve acidentes com carros de bombeiros na Graciosa, o caminho disponível do planalto ao Litoral, naqueles tempos. Quando se acreditava que o incêndio tinha acabado, surgiam novos pontos que retomavam o furor com os ventos.
Aquele tempo, o Porto D. Pedro II tinha três mercadorias principais: café, madeira e erva0mate. Com o ''mix'' de hoje, acrescentando-se o terminal de produtos finos da Petrobras e os granéis, sem falar nos combustíveis, a tragédia seria imensuravelmente maior.
O Porto não pode mostrar vulnerabilidades tão frequentes como as exibidas no derramamento de nafta e na explosão num armazém. No governo Requião houve o caso, altamente contraditório nas explicações, da explosão do silão. Também no acidente do cargueiro da Petrobras tudo pegou muito mal com as versões conflitantes de que o erro teria sido do prático ou da má colocação de bóia.
BAIXARIA O governo quer responder ao último ato de Requião com a divulgação do caixa 2 da campanha municipal do PFL com baixarias. Uma delas seria uma CPI para examinar acidentes de trânsito e com o objetivo de pegar o episódio em que o senador afastou o sobrinho de um flagrante.
Se o jogo pesado, de um lado e de outro (não esquecer a exploração safada do vídeo do casamento da segunda filha do governador em programas do PMDB), não respeitar algum limite, a maioria governista poderia simplesmente negar apoio às contas do senador, quando no governo, e torná-lo inelegível, o que eticamente é reprovável, todavia perfeitamente possível.
Coisas infames como erguer cruzes no local do acidente para tirar tão somente efeitos desgastantes para Roberto Requião e com isso manipular a memória de uma tragédia parecem impensáveis, mas no quadro que aí está é mais do que possível de ocorrer. É por essas e outras que o povo está, cada vez mais, com nojo da política por causa do ecossistema em que ela se processa.
GRAMPO Curiosa essa organização que trata dos direitos humanos na OEA, em relação aos sem-terra: examina agora a história recentíssima do grampo nos telefones do MST, que teriam sido instalados a pedido da Secretaria de Segurança com autorização judicial, e, até hoje, apesar de lá encontrar-se em exame, há mais de sete anos, nada ter decidido sobre a perseguição, execração e fuzilamento do líder sem-terra, o Teixeirinha, em 1993 no massacre de Campo Bonito. Ali os sem-terra trucidaram na base do linchamento três PMs que prestavam serviços a um fazendeiro interessado em recuperar máquina agrícola. A indenização solicitada pelas famílias dos PMs foi negada porque o juiz que presidiu o feito, Paulo Hapner, na sentença indicou que os militares (da P-2) não morreram em serviço e sim fazendo um ''bico'' em favor de um fazendeiro e foram confundidos com jagunços. No caso Teixeirinha (Diniz Bento da Silva) a viúva Lúcia Mainko da Silva pede indenização, já que o seu marido se entregou à PM e assim mesmo acabou executado.
UM RAIO No estúdio da CBN Curitiba estou na sala e me surpreendo com um minirraio que entra por uma janela e sai por outra. Bem menos gratificante do havido com o vôo ágil de um multicolorido beija-flor que, como a faísca, entrou por uma janela saiu por outra, esparzindo poesia no recinto.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.





