As greves criadoras

Toda greve é criadora, mesmo quando repetitiva e de retornos mínimos como essas das universidades, sejam as federais ou estaduais, a do INSS ou essa, mais quente porque mais operária, da Volkswagen em São Paulo. Uma greve é, antes de tudo, uma ruptura de contrato e de modelo, a quebra da ordem normal e acomodada das forças com potencial de conflito.
Diz-se que o Paraná ganhou maior autonomia ao trazer para cá as montadoras, que teria, com isso, rompido a dependência relativamente a São Paulo. Pois bem, esse modelo, posto à prova, com o fechamento da Chrysler e combatido por causa do excesso de subsídios (ainda agora houve novas e odiosas concessões com mais imunidade fiscal, comprometendo a arrecadação de futuros governos), está sob novas tensões. Não bastassem a recessão internacional e a dificuldade imensa de desovar estoques, fato visível no ''marketing'' televisivo, a saída para a greve metalúrgica na fábrica da Volks em São Bernardo do Campo vai nos afetar. Para garantir os três mil empregos metalúrgicos em São Paulo, atinge-se a mais moderna fábrica do mundo, a da Audi-Volks, em São José dos Pinhais, com a supressão de uma nova plataforma de carros, a Tupi.
Ora o governador está empolgado, o que é legítimo, com o gugu-dadá do seu netinho, o Tobias, lá em Nova York; seu sucessor momentâneo, já que a vice também está viajando, se preocupa com coisas mais terrenas como curtir seus escassos dias de glória junto às bases. Esperar que o empresariado omisso do Paraná, em meio ao culto de um feriadão, se manifeste é demais. Então só faltava a ação, e ela veio, do sindicalismo nascente da praça, manifestando o seu inconformismo com a jogada da Volks nacional para quebrar o galho da bronca dos metalúrgicos paulistas.
Para os bestalhões que usavam a inexperiência sindical da base metalúrgica local como argumento-chave para atrair as montadoras essa não é a primeira manifestação de vitalidade. Já tivemos greves, inclusive na Audi e Volvo, para mostrar o quanto é furado esse juízo. Como não podem esperar que a Federação das Indústrias do Paraná faça alguma coisa, os metalúrgicos paranaenses vão pleitear reunião nacional com os dirigentes da multinacional.
Sartre dizia que o homem está condenado à liberdade. Por essas e outras, especialmente o que se dá no Brasil, é de concluir-se que a nossa condenação é apenas e tão somente à sobrevivência.


BIZARRICE


Se a Volks para atender a manutenção dos três mil empregos em São Paulo prejudicar a fábrica paranaense, considerada a mais moderna do mundo, teremos a prova de que as montadoras só vão criar problemas para Lerner. Não bastasse a notória evidência de que empregam pouco e pagam menos ainda e da dilação dos prazos para pagar ICMS e do fechamento da Chrysler temos mais essa. Aquilo que era uma bandeira vai se transformar num ônus eleitoral.


AXIOMA Curitiba é uma cidade regida, em seu plano diretor, por interesses negociais. Assim se deu com o Shopping Mueller e vai ocorrer novamente com outra jogada do empresário Salomão Soiffer com a abertura da Rua D. Pedro II e com o objetivo de viabilizar outros empreendimentos, inclusive o de uma central comercial na Mansão dos Gomm, de sua propriedade.
Que modelo de urbanismo é esse e a favor de quem?


GLOSA Vem aí uma nova interpelação, se o governo estadual insistir (como quer) na venda da Copel, agora sob um novo fundamento: a lei de novembro de 1999 que abre possibilidade para arguição de descumprimento de preceito fundamental.


EPIGRAMA O povo está matando cachorro a grito: neste ano a Carteira de Penhores da Caixa Econômica no Paraná teve aumento de 31,58% com 127.380 contratos. E isso com baixa avaliação dos bens e juros altos.


FILIGRANA O Porto de Paranaguá é o World Trade Center da terra: depois do vazamento de nafta a explosão do silo. Já no governo Requião houve a explosão do silão. Ainda que perto da festa da padroeira, urge chuva de água benta.
Cinquenta anos passados houve um incêndio no terminal que durou semanas. Fosse hoje, com a diversificação do Porto, a tragédia seria maior.


SPRAY Essa violência em Foz do Iguaçu a pretexto de combate ao contrabando com a resposta furiosa dos sacoleiros é algo mais real do que o imaginário núcleo de radicais do islamismo.- A segurança no Paraná está zerada: até agora mais de sete mil carros foram roubados. Pergunta-se: a passagem da CPI do Crime Organizado por aqui trouxe algum resultado frutuoso ou a frouxidão é a norma? - As mortes de presos no 7º Distrito Policial anteontem ratificam a quadra de absoluto imobilismo. Exibir frotas de carros novos não intimida e muito menos previne o crime.- Segundo o depoimento de Paulo Pimentel o acordo branco entre Lerner e Alvaro Dias na eleição de 98 explica o sumiço de sua ficha no PFL. A paranóia do sistema era de tal ordem que negou a possibilidade de Rafael Greca ir à disputa e que poderia sair vitorioso.- Requião chia contra isso, exige um ato de purgação de culpas de Alvaro, mas esquece que aprontou o mesmo contra ele quando lhe negou apoio como concorrente de Lerner ao governo.-


FOLCLORE Lerner volta amanhã dos Esteites. Merece uma recepção à altura lá no Aeroporto de Affonso Pena. Vai ser a glória.


CROMO Filtro de amor voltou à moda e pode até apresentar um genérico.


AFORÍSTICO O Caixa 2 vai ser o boneco de mola do Natal deste ano.

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