Luiz Geraldo Mazza
Conflitos (saudáveis) de rua
O exercício unilateral da manifestação política, velha fantasia dos cultores do mito das barricadas, centrada na idéia de negar o contraste e se possível eliminá-lo, está ameaçado. De um lado por um fenômeno de entropia, o desgaste desses rituais em que pese a crise que o alimenta, e de outro pela disposição de surgirem forças contrárias. Seria divertido, por exemplo, ver grafiteiros (não os artistas e sim os pichadores) sendo perseguidos por quem discorda da violência e covardia de suas atividades. No meu tempo de criança, quando nossas aventuras nos levavam a pular muros para invadir pomares e roubar frutas, éramos combatidos menos pelos cães bravios do que por exímios atiradores que usavam carga de sal. Eram dolorosas as consequências desses disparos nas partes pudendas.
A circunstância de na manifestação estudantil de anteontem, diante do Paço Municipal, de haver também uma brigada favorável ao prefeito é saudável. Se é legítimo o protesto contra pessoas e instituições também se deve assim considerar o contraprotesto. Nos idos de 64, e já anos antes, havia em São Paulo embates entre a esquerda, que se acreditava a dona do pedaço, e a direita que afinal, haja o que houver, nunca o largou. Há farta documentação dessas batalhas de rua, apropriadas ao radicalismo daqueles dias e até ao fato de haver democracia, como nunca, sob Jango Goulart. Ninguém abriu tanto o País para o debate, posto que revelasse falta de competência para graduar as tensões que ocorriam na área militar com a quebra da hierarquia e a demagogia larvar da insurreição de sargentos.
Obviamente já tivemos, e isso em dias recentes, aquele também demagógico, ainda que com origem justa, cerco das esposas de policiais militares contra os quartéis. Ora é inadmissível, ainda que a oposição irresponsável estimulasse a baderna só para desgastar o governo, que alguém civilizado aceite esse tipo de ''populismo revolucionário'' que lembra os agitos que precederam a Revolução Soviética, um deles imortalizado no filme engajadíssimo de Eisenstein que trata do Encouraçado Potemkin. Esse imaginário, que por vezes está muito próximo da infantilidade gaiata, é constante nos auês de calçada.
Dá para imaginar o quanto apelariam para as ONGs dos direitos humanos os nossos ''pula-catracas'' dos ônibus que se acreditam revolucionários e marcando pontos em favor do passe escolar se uma parte dos usuários se decidisse a persegui-los. Daria um filme de perseguição digno de Chaplin, Buster Keaton e Harold Loyd.
A guerra do Afeganistão tem um pouco de tudo isso: os americanos deram grana para Osama bin Laden expulsar, com guerrilha da falange taleban, os russos e agora estimulam os adversários de ontem, a Aliança do Norte, para eliminar, se possível, os fanáticos. Claro que transportada a questão para nossas ruas haveria apenas a prova de anomia e, mais do que isso, inexistência de governo. Já no caso da venda da Copel (ou de tantas outras coisas como o pedágio) não haveria contraste porque mais de 90% da população é contrária e aí temos um exemplo de um discurso em que a contestação é impossível.
ELOGIO Correta a atitude das autoridades em determinar a liberação da pesca que estava interditada nas baías de Paranaguá e Antonina por causa dos efeitos do derramamento de nafta. E isso se deu um dia antes da festa de Nossa Senhora do Rocio, comemorada ontem, quando os pescadores, em desespero, aprontavam uma procissão de barcos até a igreja da padroeira.
No histórico singelo da origem da imagem (a original foi roubada há muito tempo) a repetição de algo que se dá em todas as lendas de santas do Litoral: o pescador lança a rede e captura a delicada estátua. Depois a imagem acaba, ela própria, escolhendo o local do templo.
Houve, tempos passados, um episódio que já narrei aqui: um derramamento, em limpeza de porão de navio, de cianureto. O dirigente da então Surehma, a Superintendência de Recursos Hídricos e Meio Ambiente, determinou a interdição da pesca. Estávamos no regime militar e como obtive dados periciais do Centro Tecnológico da Universidade Federal de que seria impossível, nas condições descritas, haver ameaça a formas adultas de vida sugeri à equipe do Canal 12, cujo telejornalismo eu dirigia, formada pela repórter (Marise Helene Horochovski) e o cinegrafista bem como o iluminador se alimentassem do pescado de Paranaguá.
Agora resta processar exemplarmente a Petrosuja outra vez. Antes que vire uma Petrossauro como batizava Roberto Campos.
DESEMPREGO Há duas coisas ''mascaradas'' no Brasil: o verdadeiro peso da inflação, filtrado por metodologia conveniente, e o do desemprego. Há uma espécie de ''expurgo'' daquilo que mais atormenta a nossa vida: as taxas públicas. A reportagem de ontem de Israel Reinstein foi pedagógica no estudo comparativo entre salários e taxas públicas. Se fosse levantado o que se dá com funcionários públicos de todos os níveis o descompasso seria maior.
CABO-DE-GUERRA O jogo de braço entre o governo e grevistas, tanto no caso estadual como no federal, ganhou componente novo: alunos prejudicados com a prolongada greve foram ao Judiciário brigar por seus direitos como também entidades que formam estudantes (cursinhos, especialmente) para o vestiba. Isso é o mínimo civilizatório que se exige. Não é possível que apenas a vontade das minorias prevalecesse: quantos milhões de jovens andam angustiados com a perspectiva de não haver vestibulares? Esses também têm direitos.
SALVACIONISMO Uma das obsessões brasileiras é a do homem providencial, enfim o salvador. Povo que precisa de salvadores não merece ser salvo.
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