Haja saco agora com as ONGs

É preciso que o controle parlamentar funcione sobre as ONGs como igualmente opera diante da CBF, das empreiteiras, das centrais sindicais e também as empresariais e até, convenhamos, sobre algumas pastorais. Isso é democracia. Já que vivemos no que os teóricos chamam de ''poliarquia'', a saber uma comunidade com vários centros de poder, urge acompanhá-las, o que não implica necessariamente em patrulheirismo.
Há uma ONG, denominada Movimento pelas Ética na Política, e que anda a tirar o sono dos nossos vereadores curitibanos. Até o PT, que se julga de corpo fechado contra esses pecados, reagiu fortemente à primeira classificação dos legisladores, atribuindo-lhes notas com a rudeza do mestre-escola do passado. Só deu nota baixa e a vereança chiou, mas a população, de um modo geral, acabou concordando. Isso nada tem de mal. Ao poder descendente do sistema, como ensina Norberto Bobbio, opõe-se o poder ascendente da sociedade organizada que pode ser ou não uma ONG, um clube de serviço, um sindicato, uma associação de moradores, confissões religiosas, clubes, enfim essa vasta representação descentralizada.
Como é que se identifica a ONG ''quente'', com crachá, e a alternativa? De que forma ela se constituiu e a quem presta contas? No Rio fez-se uma anedota terrível: havia mais ONGs voltadas para crianças de rua do que petizes à míngua e abandonados. Esse tema foi levantado na tragédia da Candelária. Nem as ONGs, nem a Justiça, nem o Ministério Público, nada impediu que um dos salvos daquele quase genocídio se transformasse no assaltante que sequestrou aquele ônibus e que culminou em duas mortes. Entre a ação, tão explorada na base do melodramatismo e da mais justa indignação, da matança dos menores e o sequestro passou muito tempo e percebeu-se que todos se omitiram: governo, ONGs, Justiça etc.
Vereadores têm o direito de recorrer ao Conselho de Leigos para saber quem é a entidade que tanto os perturba. Mas toda a sociedade há de concordar que essa Câmara Municipal pouco faz para ser respeitada e é protegida por uma espécie de pacto, presente na partilha dos carros terceirizados, assessores e do racha orçamentário. Quando um vereador como Marcelo Almeida lança a muleta, que o protege de uma fratura, contra o seu estimado colega Fábio Camargo, há um raro momento de verdade no Legislativo por quebrar a rotina de acomodação e revelar que ali existe algum tipo de combate, vale dizer de vida, não importando se pouco educada.


BIZARRICE

Hoje a Juventude Socialista promete lançar porcos na frente do Paço Municipal como protesto contra o caixa 2 da campanha eleitoral de Cassio. Botar porco na parada pode lembrar, de forma oblíqua, o jogo do bicho lá no Rio Grande do Sul que aliás não passa de pecado venial.


AXIOMA Brizola no Roda Viva da TV Educativa anteontem: um contêiner de mágoa e ressentimento generalizado que vai de Lerner a Lula passando por Ciro Gomes. Bem-feito para Alvaro Dias: por oportunismo (e provocação do Requião que o chamou de tchutchuca) se desligou de FHC e agora se ligou no caudilho.


GLOSA Se Lerner tivesse um mínimo de noção a quantas anda a sua imagem por causa da Copel só falaria em Foz do Iguaçu se trajasse uma burca.


EPIGRAMA A oposição está no poder: o governador interino, Hermas Brandão, recebeu ontem pela ordem o ex-secretário Giovani Gionédis, o deputado Tony Garcia e a bancada de oposição. Lerner é o homem dos ''novos caminhos'' e o Brandão o da adequação das estradas. Readequará os caminhos?
Como diz o poeta espanhol, ''caminhante não se faz o caminho, o caminho se faz ao caminhar''.


SPRAY Em política a versão se sobrepõe ao fato e a aparência à realidade. No domingo em Foz do Iguaçu um ato ecumênico, que envolvia religiões e etnias e visava mostrar a falácia de que nas três fronteiras haveria terroristas, foi desfigurado por uma vaia contra o governador Jaime Lerner. - Todos sabem que ele está péssimo de Ibope e também em Foz onde criou expectativas delirantes quanto à Costa Oeste com a promoção dos Jogos Mundiais da Safadeza. Nada, porém, justifica a selvageria da vaia em momento impróprio. De repente tais manifestantes colocaram essa bronca, que pode até ser justa, mas que se torna um ato mesquinho diante do significado da manifestação pela paz. - Lerner fez bem em viajar para ver o neto, o Tobias, em Nova York: livrou-se de ouvir os transbordamentos de Brizola na TV que sugeriu ter criado o arquiteto e o tirado do fundo do galinheiro ao oferecer-lhe a legenda. - O PDT, ontem com Lerner, hoje com Alvaro Dias, continua uma ficção e assim permanecerá sob a liderança de alguém que se julga inconfrontável e que perdeu do Enéas e que fala em união de oposições e se constitui naquele que mais a impede.


FOLCLORE A trairagem é o respirar da política: no Juízo Final, como sugeria Dalton Trevisan em suas crônicas surreais, os notários engolirão selos e carimbos e os notórios, esses que estamos acostumados a ver, serão sempre os mesmos, irremediavelmente iguais.


CROMO Em você às vezes a vejo como árvore e na resina que verte do seu caule macio sou o pássaro capturado pelo visgo.


AFORÍSTICO Lerner e Greca cochicharam solidariedade ao ouvido de Cassio?


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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