Luiz Geraldo Mazza
O Estado privatizado
No fim dos anos 80 estava no auge da moda falar em privatização. O candidato do PCB, Roberto Freire, insistia que era também relevante cuidar de ''desprivatizar'' o Estado, com o que se referia às clientelas que gravitam, de forma cativa, em torno do poder. Curiosamente fala-se muito em estatais e estatizações, ocultando-se que o mundo negocial desses entes públicos está a cargo de particulares, como se vê nesse ''chega mais'' da própria Copel. É a Copel às voltas com empreiteiras de sempre, CR Almeida, DM (aliás eram ótimos servidores dessa o atual presidente da Itaipu, Euclides Scalco, e o ex-diretor da Copel e ex-ministro Deni Schwartz) e agora a tal da Tradener e tantas outras. Vimos o ''rolo'' que deu quando Alvaro Dias, governador, enfrentou o empresário Cecílio Rego Almeida no caso de Segredo ao impor um consórcio para tocar a obra com a DM, a Sinoda e a Cesb.
Torna-se, portanto, discutível a ênfase dada à desestatização quando se analisa a intimidade do sistema. É claro que a hipertrofia estatal, ainda mais com as exigências (puramente formais, diga-se, nos tribunais de contas e nada disso é para valer) das licitações, emperra o processo. Também não se pode impor, como os totalitários do neoliberalismo, a flexibilização extrema e que anula controles. Isso não existe no mundo civilizado, mas faz parte de um discurso safado. Não se substitui o Estado onipresente pelo Estado ausente, como doutrina o mestre Belmiro Valverde.
Outra babaquice clássica e transformada em axioma é a falácia do Estado Mínimo, como se o minimalismo existisse em qualquer sociedade moderna como a representada pela norte-americana e as da Europa. O Brasil vive um momento de extrema confusão relativamente ao assunto, já que as agências de controle, criadas pelo governo (Aneel, Anatel, Anp) simplesmente não funcionam como se o objetivo fosse esse mesmo, uma vez que quanto mais aberto o país se mostrar mais credenciais obtém para defender com justeza a derrubada de barreiras alfandegárias que tanto o prejudicam especialmente num momento em que exportar é vital como a UTI para um doente terminal.
A falta de consistência de uma doutrina como essa que, por ser hegemônica, não é democrática leva um setor abobalhado do empresariado falar em economia de mercado, coisa que nunca testaram porque se nutriam de cartórios, como se estivesse habilitado a competir: algo como um ''pega'' entre Mike Tysson e alguém com o corpo do nosso querido João Féder ou do delegado Tiriva, Renato Souza Lobo. Adotam um discurso que não têm como aplicar, tal qual fazem os políticos, especialmente os petistas, quando falam em ética (sempre a patologia está nos outros, nunca neles).
SABEDORIA Não me esqueço do vereador curitibano que, revoltado contra preços altos, ao receber a explicação de que aquilo se devia à lei da oferta e da procura sugeriu, de imediato, a sua revogação. Os simples como esse podem não ter sabedoria, mas dormem felizes com a singeleza poética de sua ignorância.
DENÚNCIA A carta Brandi também parecia verossímel, quase derrubou o governo de Getúlio Vargas e se mostrou falsa. Muita gente embarcou na boa fé. Adversário nunca oferece o benefício da dúvida. Na cabeça dele não entra a idéia de que, apesar de todas as denúncias, também Maluf pode ser alvo de equívocos.
O moralismo, no entanto, quase sempre não passa de um recurso de projeção: a de lançar nos outros aquilo que é intrínseco na personalidade do denunciante. Dá para lembrar, uma vez mais, de Haroldo Leon Perez. Que aliás é o lançador de Lerner para a Prefeitura de Curitiba no regime militar e que acabou depois, apanhado em flagrante de corrupção, teve que renunciar. Ele saiu, Lerner não. Uma coisa nada tem a ver com a outra, já que o substituto de Perez, o estadista Pedro Viriato Parigot de Souza, manteve seu ex-aluno de Engenharia.
UM PRÉDIO O edifício onde funcionava a ''Folha de Londrina'', um andar acima da Confeitaria Iguaçu, na praça Osório, nos anos 70, tinha vizinhos muito importantes: no último andar o escritório da Coffeebraz que pertencia a Haroldo Leon Perez, num intermediário (o sétimo, se não me engano), funcionava o escritório de arquitetura de Jaime Lerner, Marcos Prado, Domingos Bongstabs e o Manoel Coelho.
O síndico do prédio, Gil Espírito Santo, teria sugerido, segundo uma versão, que Leon Perez nomeasse Lerner para prefeito por ter sido um destacado presidente do IPPUC. Outra versão sugere que Lerner fez as paredes divisórias da casa de Paulo Carneiro que iria ser ocupada por Peres e teve na esposa do político maringaense uma espécie de madrinha. Junto com Lerner foi nomeado Marcos Prado para o Detran.
Quando Lerner decidiu o fechamento da XV e a criação do calçadão, a primeira peça de defesa (usada em transcrições de primeira página pela Prefeitura nos jornais de Curitiba) foi um artigo meu em favor dos vizinhos Lerner e Marcos e a relevância das decisões que tomavam em matéria de circulação. Lembro que o gerente da sucursal, Ubaldo Siqueira, ao ver o festival de transcrições de primeira página, muito bem pagas, achou aquilo tudo irônico, já que não teria sentido programá-la para o nosso periódico, mas ficou satisfeito com o fato pelo prestígio a um jornal do interior colocado como referência.
ÓDIO Há políticos que odeiam tanto que poderiam parodiar aquela música italiana ''Ó Deus como te amo'' em ''Ódio, como te amo''.
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