O aterro sanitário

A política já foi comparada às ruas suspeitas que comprometem até os que por ela passam. Olhada, porém, como a expressão máxima para afirmar a cidadania encontra na definição de Aristóteles de que o homem é essencialmente um animal político, vale dizer gregário em meio ao conflito, a sua versão mais digna e por certo mais pura. Como Descartes apreciou duas razões e sobre ela montou uma crítica a prática e a pura assim também se dá com a política.
O jogo sujo da política é também apropriado porque se abrindo para o contraste ele cresce no conflito, na dialética e o quanto mais acirrada melhor. Normalmente os políticos tentam se passar por puros especialmente no instante em que chafurdam como os bácoros no chiqueiro de lama eleitoral. E isso tem até uma explicação clássica: a expressão ''candidato'' se origina do latim candidatus, uma vez que os que disputavam eleições na Roma clássica, a fim de atrair a atenção do povo, utilizavam uma vestimenta branca e brilhante, como se submetida a um dos nossos alvejantes do tipo Omo ou Rimso, chamada de toga cândida.
Um codificador verbal admitiu que os poemas concretos e práxis poderiam dar um saque de efeito com as reverberações das palavras ''alma'' e ''lama'', um jogo de troca de sílabas para expressar essências como aquelas da perspectiva da ontologia (ontos, ser). A lama é a alma da política, o recurso mais forte para distinguir e diferenciar, exigências básicas de um processo eleitoral.
Não há político do Paraná, de primeiro ou segundo plano, artista principal ou coadjuvante, que não seja alvo de um arquivo, no qual se registram suas pisadas na bola, atos claros ou supostos de fraude ou corrupção, olvidados, porém, todos os referenciais de possíveis méritos e virtudes.
A divulgação do dossiê eleitoral da campanha de Cassio Taniguchi, o relativo ao caixa dois, o que existe em todos os comitês, deu margem a que adversários do senador Roberto Requião divulgassem as suas façanhas desde o episódio do falso pistoleiro ''Ferreirinha'', tido como a maior farsa eleitoral de nossa história, até o caso dos dólares de dona Maristela e ainda a tragédia de trânsito provocada por um sobrinho. Chumbo trocado que na verdade não responde as acusações e tão somente alcança o suposto denunciante.
Enfim a política é um aterro sanitário, o que não impede que ali floresçam rosas e dálias como também é possível encontrá-las no esgoto.


BIZARRICE


Nos anos cinquenta houve em Curitiba o escândalo dos menores, examinado pelo delegado Almir Chagas Vilela e que envolvia figurões da alta sociedade. O drama era evitar que os bacanas tivessem o nome publicado no jornal Última Hora e os advogados dos acusados, para envolver o máximo de pessoas, mandavam as meninas aliciadas relacionarem pessoas que jamais viram. Houve desquite, briga familiar, um prefeito foi chamado de ''linguinha de ouro'', enfim um escarcéu.
A relação dos nomes que aparecem no caixa dois da campanha eleitoral pode ir por esse caminho. Que tal um bolsinho ou gavetinha de ouro?


AXIOMA Professores universitários invadiram a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. O desespero limita a criatividade e exacerba a agressividade. Se não há dinheiro, como atender aos grevistas?


GLOSA Só falta o governo, diante das pressões dos servidores que não têm aumento há sete anos, mandar um artista ler aqueles versos: ''Sete anos de pastor Jacó serviu...'' E lascaria a história do Jacó que por amor a Rachel trabalhou como escravo 14 anos para Labão. Que tal se o governo, aberto ao livro sagrado, resolve fazer o mesmo com o funcionalismo por mais sete anos?


EPIGRAMA Requião reclamou que exploraram politicamente a sua intervenção no acidente do sobrinho, esquecendo que fez a mesma coisa com o casamento da filha de Lerner, Andréa, em Nova York.
Por sinal que Andréa teve, anteontem, o filho Tobias que o vovô Jaime vai conhecer na próxima semana: sai quarta, 14, e retorna dia 19.


SPRAY Ligam-se os spotlights: o senador Roberto Requião vai dar coletiva hoje sobre o caso do caixa dois da campanha de Taniguchi. Ocorre que com enorme antecedência, inclusive na rádio Paiquerê em Londrina e nesta ''Folha'', fez alarde sobre o caso. - A divergência é que ele fala em mais de R$ 50 milhões e o dossiê da ''Folha de S.Paulo'' em menos de R$ 30 milhões. - Será perguntado inevitavelmente sobre a sua intervenção no acidente provocado pelo sobrinho em que morreram duas jovens e também pela investigação no STF de crime eleitoral que teria praticado na última campanha. - Por sinal que o processo relativo ao delito de trânsito continua e um tenente do Bptran foi ouvido ontem. Até agora ninguém acusou formalmente o senador de ter se valido da sua condição para retirar o sobrinho do local do acidente. - Gênios do governo imaginam fórmulas de restabelecer o leilão da Copel. Qualquer uma delas exigiria a recontagem dos prazos na convocação renovada. Uma hipótese para atrair concorrente seria a de baixar os custos do investimento por uma velha técnica do governo pródigo de Lerner: mais imunidade fiscal, como fez com as montadoras. -


FOLCLORE Nessa história da revitalização do Rebouças quem ganha e quem perde? Na da Rua XV o comércio não levou a melhor e segue em processo acelerado de desagregação. Ficou apenas a maquiagem.


CROMO Um colibri no jardim: adeja e faz uma rosa enrubescer.


AFORÍSTICO Na Bolívia só pensam na vitória contra o Brasil. No governo daqui só se pensa na Copel, ainda, por incrível que pareça. Aqui foi 2 a zero.


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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