O caixa 2

Há alguma campanha eleitoral sem caixa 2? Claro que não, mas o farisaísmo da prática política tenta sugerir o contrário. Como se faz com a grana que o contribuinte, docemente constrangido, dá com a exigência de que não haja recibo até para não deixar impressões digitais?
A contabilidade formal, apresentada ao TRE, é uma ponta insignificante de um volumoso iceberg. Como se vê no caso não apenas de Cassio Taniguchi como no de Olívio Dutra, governador gaúcho, às voltas com a denúncia de que recebia dinheiro do jogo do bicho. E também presente no episódio mais traumático da história recente do Brasil nos fundos de campanha de Fernando Collor de Mello e visível na Operação Uruguai e na atuação solerte de PC Farias, cuja morte muitos consideram uma queima de arquivo.
Esta Folha foi, na verdade, o primeiro jornal a dar circulação à denúncia do senador Roberto Requião na semana passada, sobre o assunto. Como não houve acesso a documentos, o que o jornal registrou, a repercussão não teve o impacto de ontem na reportagem investigativa da ''Folha de S.Paulo'' com chamada de primeira página e mais duas internas e cuja sequência deve se dar ainda nos próximos dias.
O senador Requião, a quem se torna inútil recomendar contenção, falou em cifras bem mais elevadas do que as documentadas, ao menos na perspectiva do material levantado, referindo-se a um ''extra'' de R$ 50 milhões quando o jornal indica R$ 29 milhões, o que não é pouco.
De qualquer maneira, ao assumir a denúncia o maior veículo impresso do País, que ouviu a parte acusada, que se saiu com evasivas até porque sem outra alternativa, joga uma bomba atômica em cima da maior figura dos quadros situacionistas, o prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi, que dá de mil a zero em qualquer das outras opções como Alceni e Greca mais Beto Richa na sucessão. Um problemão político.
Ontem, no fim da tarde, quando nervosamente se esperava o depósito que não foi feito das concorrentes ao leilão da Copel, um governista traduzia a sua perplexidade ao afirmar, desolado: ''Agora só falta micar a venda da estatal!''


BIZARRICE


Enquanto os professores ficavam pelados em protesto contra Jaime Lerner, que segura o pagamento do vale-transporte há dois meses (que mesquinharia!), a imprensa começava nacionalmente a tirar a roupa do governo que quebrou o Estado


AXIOMA ''O pai virtual do Baby Tequilla (from Glória Trevi) é uma caneta Bic ou Parker.'' Mais uma do anarquista Elísio Marques. Aliás, sobre isso não se pode dizer que a Polícia Federal resolveu o caso da gravidez em suas dependências com uma canetada.


GLOSA Manifestantes que ficaram nus na Assembléia Legislativa podem não ter o poder que imaginam, mas lhes sobra pudor: posaram com tapa-sexo, quase uma espécie de plágio do filme ''Laranja Mecânica'', de Stanley Kubrik. E como Kubrik (argh!) as partes pudendas dos artistas com aquela bolinha discreta!


EPIGRAMA Se houver, na continuidade das denúncias sobre o caixa 2 da campanha eleitoral, o pedido de impeachment na Câmara Municipal contra o prefeito Cassio Taniguchi, nem todos do PT, podem conferir, o aprovarão. É o que se pode concluir pelo comportamento habitual da bancada. Em compensação, a turma do PSC aprova o de Lerner o de Cassio não.


SPRAY O Paraná tem escassas experiências de democracia, uma delas aquele choque entre os principais secretários de Richa, Belmiro Valverde e Erasmo Garanhão, cuja investigação das denúncias se deu em sessão aberta do Legislativo e com a cobertura da rede de Paulo Pimentel. - O registro mais importante para a democracia, ontem, foi a denúncia da ''Folha de S.Paulo'' do caixa 2 da campanha municipal. Também não estamos habituados a isso e é algo que obriga a repensar o nosso sistema de comunicação. - O senador Roberto Requião teve a faca e o queijo na mão quando relator da CPI dos Precatórios para desvendar o que ocorria no Paraná nas vendas de títulos estaduais. Apesar do seu empenho e dos senadores catarinenses Esperidião Amin e Kleinubing nada se captou daquilo que apareceria na hora do saneamento do Banestado. - Tivemos uma fase de exageros sobre os feitos urbanísticos de Curitiba e agora tudo anda na contramão do triunfalismo. - O que se pode deduzir do havido com a equipe do QG eleitoral é que esnobaram demais algum servidor, prometeram-lhe coisas que não cumpriram, o que é apropriado à soberba e prepotência, levaram-no ao desespero e à humilhação e da indignação foi um passo à denúncia. - Os espertos em campanhas eleitorais acham inverossímel a importância referida, pois nem uma estadual teria tal custo. E uma nacional mal chegaria ao dobro do parâmetro aludido. - Efeitos políticos serão devastadores, mas Cassio, que já não pretendia disputar a sucessão de Lerner, ficará mais ou menos como FHC diante do dossiê Cayman. Com uma diferença: FHC não deu entrevista e Cassio o fez, ''legitimando'' a matéria por imposição do ''staff'' palaciano.


FOLCLORE Apanhado sem calças por não pagar sequer o vale-transporte dos funcionários, ao situacionista, diante do ''strip-tease'' dos servidores, restou o recurso de uma piada inglesa: ''O governo achou muito acanhado o argumento dos professores''.


CROMO Ronda sempre a cabeça dos políticos a mosca azul. Leva todo o jeito, porém, de uma varejeira, aquela que produz o berne.


AFORÍSTICO Lembram da Escola de Base quando todos os veículos de comunicação criaram um drama insolúvel para os proprietários? Aquele foi pecado mortal.


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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