Luiz Geraldo Mazza
Nossa Petrobras cabocla
A política faz milagres: nunca a Copel foi tão amada e de forma furiosa como agora. Aquilo que se diz apropriadamente sobre os mitos erigidos em torno da Petrobras prevalece em relação à estatal de energia. Ambas configuram, numa definição precisa, o ''Estado dentro do Estado'' e como poucos se importam que a sociedade jamais consiga controlar o aparato estatal muito mais difícil é obter o monitoramento governamental sobre esse paquidermes burocráticos. O Tribunal de Contas armou um escândalo em cima de uma bobagem: a entrega de relógios folheados a ouro a funcionários, conforme o tempo de serviço, como se se tratasse de um nefando crime. Só isso dá a idéia da falta de seriedade.
Por esse exercício de reflexão se percebe que tanto a Copel quanto a Petrobras são feudos, ''bunkers'' de autoritarismo e auto-suficiência, pouco importando se o regime é isso ou aquilo em termos de liberdade já que mimeticamente a todos se ajustam. Inegável a condição da Copel de centro de excelência, orgulho da gente e que se desenvolveu com a liderança do patriarca-mor, engenheiro Pedro Viriato Parigot de Souza, que antes de sua atuação na empresa que modelou teve ação para lá de destacada na definição e balizamento do Canal do Varadouro.
TENSÕES Ela passou por algumas tensões políticas, como as da passagem das linhas de transmissão sobre as terras de José Lupion, irmão de Moisés governador, quando se insinuou (obra do advogado Rubens Requião feita em nome acionistas minoritários em assembléia da empresa) favorecimento. Apesar do que se dizia de Moisés (que mereceu até música de Juca Chaves pichando-o, o que levou o pessoal da ''Boca Maldita'' a cortar a cabeleira do menestrel), ele tirou o irmão da presidência da energética e com maior naturalidade, o que a tchurma de hoje é incapaz de fazer por certeza da impunidade e aberto despudor.
No primeiro governo de oposição, ainda no fulgor do regime militar, com José Richa é que se checou pela vez primeira, e para valer, esse poder hegemônico e em cima de uma sacanagem ideológica para obter um recuo da Copel nas suas santificadas padronagens no caso da eletrificação rural, ponto relevante da estratégia do governo ''popular e democrático'' (dá vertigem ouvir esse tipo de babaquice dos basistas de todos os naipes).
Inventamos e eu entrei de sola nessa, junto com Fábio Campana a história dos postes de madeira tratada e a pressão foi de tal ordem que as fornecedoras, donas do mercado cativo e em permanente expansão, dos postes de concreto baixaram o preço pela metade para não perder a escala da atividade. O engenheiro Ivo Pugnaloni, o oposto da Leila, a pintora, sua irmã, uma doçura, comandou como auxiliar-chave do secretário Nelton Fredrich a ''blitz'' na parte técnico-doutrinária e o arraso ficou por conta dos jornalistas e da área política, secretários e deputados.
O ALTERNATIVO Não foi fácil achar na Copel um núcleo voltado para tecnologias alternativas ou ''apropriadas'', como se referia Belmiro Valverde. Só que essas figuras eram olhadas na fauna da tecnocracia como exóticas e aí reside, aliás, um limite brutal da empresa, a sua vinculação exclusiva à hidroenergia quando já detinha comando sobre a termelétrica de Figueira e também sobre as unidades diesel trazidas pela Aliança para o Progresso. Tanto que pouco se fez, enquanto vivíamos os efeitos de dois choques do petróleo, em termos de aproveitamento eólico, da biomassa, do sol, da força do mar, o que ocorria em várias universidades brasileiras como rotina.
Volta e meia me refiro a um episódio dos mais lastimáveis que essa hegemonia extrema provocou: a Copel tinha tal poder dentro dos entes públicos que se aventurou a ''chutar'' em 1980 uma projeção demográfica para o Censo do IBGE, deixando o Ipardes de lado (este faria o trabalho com maior aproximação), calculada em 10 milhões de habitantes para o Paraná, número que ainda não alcançamos 21 anos depois. Talvez o empenho em provar aos organismos internacionais o financiamento da extensa rede de transmissão sobre áreas de população rarefeita a tenha levado a esse exercício de simulação.
AMOR FALSO Esse amor destemperado é falso. E tanto o é que esses vigilantes próximos da histeria se descuidaram na hora em que houve a autorização em 1998 para a venda da Copel com esmagadora maioria no Legislativo. Foi preciso que se chegasse ''aos finalmentes'' da operação para que se deflagrasse a oposição.
Mais cedo ou mais tarde, haverá a privatização como imposição de um modelo incontornável e imposto pela situação de um país sob tutela do FMI como é o Brasil que pode, a qualquer momento, ser a Argentina de amanhã. Nada justifica tanta incompetência, corrupção e privilégios a ''amigos do rei'' nesse processo de desmanche e muito menos o açodamento, com características próximas da paranóia, que move toda a estrutura ensandecida do governo.
Alertado por vários consultores internacionais, o presidente do BNDES e pelos próprios concorrentes de que o momento não era oportuno para a licitação, ainda assim o governo insistiu na sua obsessão da venda como se ela fosse o plasma e o sangue para atender um doente terminal.
O autoritarismo, que sempre foi a base da atuação da Copel, quebrou as resistências internas da própria empresa (muitos dos seus quadros já servem de consultores das numerosas organizações das quais a estatal é sócia minoritária) e tudo tende a terminar de uma forma melancólica, inimaginável se os que a tornaram possível como Ney Braga (calhordas quiseram envolvê-lo no processo entreguista) e Pedro Viriato Parigot de Souza estivessem vivos. Lerner prometeu um dia que preferia morrer a vender a Copel. É mais uma dívida que deixou.
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