Pobreza de quadros

Quantos homens públicos brasileiros, dentre os que se habilitam a disputar a Presidência da República, teriam condições de um desempenho como o de Fernando Henrique Cardoso, que todos invariavelmente anatematizam, na França? Parece que o confronto imaginário se torna uma anedota e isso por causa da distância estratosférica entre as condições intelectuais do atual presidente e aqueles que postulam a sua sucessão.
Partindo do quadro nacional verificamos que em termos regionais o drama ainda é mais intenso. Como se já não bastasse a ausência de qualificações dentre os que aí estão supostamente na disputa percebe-se um dado ainda mais chocante quando o confronto se volta para as equipes desses pretendentes. O que houve com a massa cinzenta, a efetiva e não a imaginária, do Paraná que parece ter tirado o time de campo. Seria tão sáfara a contribuição das universidades para que tivéssemos gente mais habilitada e em grupo disposta a mudar as coisas?
Com tais limites, os programas e as plataformas só podem nascer com notórias deficiências. Suportar o desfile de lugares-comuns, arquetipados, como vimos na última eleição municipal será obrigatório porque as programações para a gestão pública estadual se tornarão mais penosas e intoleráveis quando não destituídas de um mínimo senso.
Um dos pontos que deveriam ser estimulados pelos partidos seria o dos seus institutos, isso é os núcleos de doutrinação e formação de quadros. A batalha recente em torno da Copel revelou um debate pobre, inconsistente, para sustentar as duas posições em choque. O pior é que ninguém tem a massa crítica disponível pelo governo e assim mesmo se percebeu que inexiste uma doutrina, uma estratégia de fundamentação para tantos projetos ousados como o de mudar o perfil da economia paranaense com o fomento à indústria de ponta. Dá a impressão que ao Ipardes foi negado o direito de refletir, tal o caráter oficialesco e sem contraste das suas formulações e estudos.
Com os candidatos personalistas que estão por aí pouco se espera do trabalho dos institutos como o Alberto Pasqualini do PDT, Pedroso Horta do PMDB, Tancredo Neves do PFL e Teotônio Vilela do PSDB. Anuncia-se agora que Belmiro Valverde assumiria o instituto do tucanato, o que é uma notícia surpreendente num quadro tão medíocre pela expressão dessa figura que foi secretário de Planejamento de Cannet Júnior e José Richa e de Educação de Alvaro Dias.


BIZARRICE


E hoje, mesmo com o feriadão, voltarão os pregoeiros do ataque à venda da Copel a operar na ''Boca Maldita'' e fingirão como o governo que a suspensão do leilão é uma vitória sua?


AXIOMA Lembram daquela história do enlouquecido que batia com um martelo na cabeça e alegava que o fazia porque quando parava tinha sensação de bem-estar, tão profunda e nirvânica, que até parecia yoga? Mais ou menos o que está ocorrendo com o governo no caso da Copel e com a insistência de vendê-la quando todas as circunstâncias são desfavoráveis.


GLOSA No meio da semana, no dia em que Guga foi desclassificado, o marroquino Arazi ganhou do espanhol Ferrero. Foi o suficiente para sugerirem que era mais um feito da novela ''O Clone'' que tem muitas passagens no Marrocos. Faltou dizer que era o clone do Guga em melhores dias.


EPIGRAMA Sobre essa história de existir ou não quadros nos partidos é urgente lembrar a advertência de que não se deve confundir quadrúmanos com quadros humanos, coisas bem diversas.


SPRAY Lerner teve muito tempo para acionar o ''desconfiômetro'' quando entidades, normalmente cautelosas e conservadoras, como a Associação Comercial do Paraná e a Federação das Indústrias se opuseram à venda da Copel. - Obstinado em transformar-se num pioneiro no ajuste previdenciário, o que é realmente importante em tempos de ajuste fiscal, esperava tirar o máximo partido da venda da estatal, subestimando a gravidade da conjuntura mundial e local em nada estimuladoras do negócio. - Fez desse objetivo uma prioridade e rigorosamente quebrou a cara porque se no princípio teve o mérito de mais de dez participantes entre os interessados hoje está com a licitação limitada a um, o que é deplorável e melancólico. - Criou uma desconfiança na sociedade quanto à compulsão com que tocou o problema o que aumentava à medida que eram conhecidos os detalhes do ''desmanche'' e a proteção escandalosa a empresas de amigos. - O PMDB, depois do episódio Copel, vai acumular energia para tentar neutralizar o desgaste de sua maior liderança em função da desastrada mediação do senador Roberto Requião em favor de um sobrinho num acidente de trânsito. - Está no disparo o caso do ''caixa dois'' de R$ 50 milhões na eleição de Curitiba que teria beneficiado Cassio Taniguchi. No andamento da campanha algumas pessoas foram defenestradas como é o caso do deputado estadual Marcos Isfer e que depois saiu atirando. - É dessa bola dividida entre integrantes do comitê, os que saíram e os que ficaram, cercados por acusações de irregularidades, que o PMDB se nutre.


FOLCLORE As cidades perdem humanidade com o desaparecimento dos seus tipos populares. Maria do Cavaquinho, deficiente, decalcava as ações de Ghandi deitando no asfalto da Rua XV, que tinha dois sentidos, e impedindo a circulação de automóveis. Bataclan, um negro forte, pregando o esporte e a alimentação vegetariana, corria de calção em Curitiba ou Porto Alegre até em meio à geada fazendo conclamações cívicas. E havia o travesti Gilda que esclarecia: não era Rita Hayworth do cinema e sim Gilda de Abreu, mulher de Vicente Celestino.


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