A arte do sofisma

Se o Sócrates, o craque do Corinthians e da Seleção, faz falta a esse futebol de fazenda capitaneado pelo Felipão, o seu xará mais antigo, o grego que bebeu cicuta em lugar de uma caipirinha, é uma carência fundamental nos dias que correm, especialmente com esse tema desconcertante do leilão da Copel.
Miguel Salomão, secretário do Planejamento, disse para quem quisesse ouvir que o adiamento da privatização foi uma vitória do governo. É sofisma para ninguém botar defeito, daqueles que exigiriam a contestação de um Sócrates lançando mão das artes que inventou do método à maiêutica, o senso da parturição mental, que induz alguém por um tipo de raciocínio que leva à verdade.
Também não é verdade que a oposição ganhou a parada, já que a transferência do leilão se deu por falta de grana e um mínimo de garantias de retorno, o que afinal acaba mostrando que a Copel não é também esse tesouro do pirata Zulmiro imaginado pelos delirantes. Tanto, que o preço mínimo, na perspectiva dos concorrentes, foi visto como elevado demais, fato anotado, desde o início, por alguém que entende do riscado e de riscos, o dono da Votorantim, o empresário Antonio Ermírio de Moraes.
Tudo demonstra aquilo que tenho dito, desde o início, sobre o viés fascista do governo que está presente nesse processo de deseducação, contaminado essencialmente pela ausência de informação responsável. Tanto, que as melhores denúncias vieram na hora em que se detalharam ações contra a venda, isso de forma especial na mais abrangente de todas movida por Giovani Gionédis, por ser um suspeito dissidente e beneficiário do sistema.
Que dezena de empresas são essas que integram o grupo que restou da listagem de participantes? Isso confere mais mistério ao processo viciado da privatização. E confirma que há um sinal de insânia mental na insistência em fazer a venda de qualquer modo. Por sinal que além de preferir a morte, como declarou certa vez quando lhe perguntaram sobre a privatização, a entregar a Copel em outra ocasião afirmou categoricamente que só o faria se estivesse louco.
Meu professor de Latim no Ginásio Paranaense, João Mazzarotto, ensinava brocardos: ''Praefero mortem honestam quam vita torpe'' (''Prefiro a morte honesta do que a vida torpe''). De qualquer forma é apropriado lembrá-lo.


BIZARRICE


Aí no meio das discussões políticas vieram duas consultas em sentido diverso: quais seriam as drogas genéricas para disenteria e prisão de ventre?


AXIOMA A fronteira entre o público e o privado não é transgressão que se dá apenas no governo. Consta à boca pequena que na sede de um dos partidos da aliança governista opera um escritório de venda de gado. Grilagem partidária é coisa comum, ainda mais quando se especializa em currais eleitorais.


GLOSA Curioso: os funcionários da Secretaria de Ciência e Tecnologia são capazes de acertar direitinho as consoantes do Ramiro Wahrhaftig, mas ontem grafaram ''paralisação'' com ''z'' numa nota oficial.


EPIGRAMA Se o presidente do Legislativo, Hermas Brandão, vai entrar apenas na segunda-feira com recurso contra a liminar que declarou nula de pleno direito a sessão que rejeitou o projeto que derrubava a venda da Copel, dá a impressão de que está tudo combinado com o governo. A data é a véspera do depósito de garantia para permanecer no leilão. Como dizem os funkeiros: ''Tá combinado, tá tudo combinado!''


SPRAY Políticos devem explorar dramas familiares como o da família Requião com o caso do acidente de trânsito? Poderia o PMDB se valer do casamento da filha de Lerner para levar imagens a um programa do partido? Estaria o governo numa posição confortável ao denunciar aquela história dos dólares da esposa do senador Requião, Dona Maristela? - Em princípio, quem é político jamais pode arguir a questão da privacidade. Figuras públicas têm dificuldade em fazer essa proteção e o fundamento é o de que a ''sua'' vida privada é do interesse geral. - O casamento de Andréa em Nova York, do qual participaram alguns amigos íntimos da família Lerner, foi filmado pelos convidados e um deles foi quem passou a cópia para o PMDB. Um tema desses é imperdível em proselitismo político. - Quando Lupion era governador e houve o casamento de sua segunda filha com festa no Castelo do Batel, a revista ''Guaíra'' fez reportagem inusitada mostrando empresários de porre, a elite burguesa amarrada no proletariado. - Agora a imprensa está recebendo informações de que um irmão de Roberto Requião, o Walace, teria intervindo em 1999 em favor de um filho que provocou acidente com a morte de Ennio Tarso Monção Pires em 25 de abril. - Esses processos sabe-se como começam e nunca de que forma terminam, ainda que provoquem a saturação, pelo excesso de exploração, do público. - O vereador Tadeu Veneri (PT), faz pedido de informação a respeito da tal passarela que será construída sobre a Mateus Leme para beneficiar o Shopping Mueller.


FOLCLORE Um secretário de Lerner dizia em junho que o ágio iria de 20% a 70% na venda da Copel. No momento, o governo inteiro se agarra em fio desencapado para que a derradeira concorrente, a GP Investimentos. O problema é esperar que haja o pg (pagamento) da GP na terça-feira.


CROMO A saudade, especialmente hoje, rescende a jasmim e vela escorrida.


AFORÍSTICO Do governo tudo se pode esperar, menos coisas sérias.


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