Luiz Geraldo Mazza
A derrota camuflada
Há a convicção de que a Copel será mesmo privatizada, apesar de tudo o que se afina com a racionalidade e o bom senso o desaconselhe. E vai ser privatizada porque o governo irresponsável que temos (e cuja leviandade é manifesta na forma como processa esse desmanche ajudando os amigos do peito) está obcecado, doente e de forma furiosa relativamente ao assunto.
Todo o raciocínio cartesiano como o do presidente do BNDES, Francisco Gros, é desprezado. Ele disse que a hora é imprópria em função do quadro recessivo internacional e da crise energética do País para o leilão e adiantou, como já fizera o empresário Antonio Ermírio de Moraes, que numa hora dessas é difícil encontrar no mundo quem tenha a disponibilidade de R$ 5 bilhões para investir sem ter um horizonte claro dos retornos imagináveis.
Tudo o que estava previsto pelas cabeças lúcidas aconteceu: as empresas, que se habilitaram e que já haviam pedido o adiamento do leilão, acabaram não tendo como depositar a caução exigida e aí o governo, fingindo a fleuma que não tem para essas coisas, sugeriu que ele próprio é quem teria tomado a iniciativa de transferir a data.
O fato de ter derrubado as liminares perdeu a importância diante da
situação-limite em que foi colocado muito parecida com a que está impondo à sociedade paranaense com essa iniciativa carregada de suspeitas e marcada como sempre pelo velho estilo da ''caixa-preta'', aquele mesmo que empregou nos clamorosos protocolos das montadoras e na craca acumulada nos atos que precederam a ''venda'' do Banestado ao Itaú a custo zero.
Uma anedota clássica apropriada à passagem mítica da vitória de Pirro cabe aqui lembrar: duas pessoas brigaram e a que estava toda arrebentada, cheia de equimoses e até com um olho vasado, ria desbragadamente enquanto a outra, sem nenhum arranhão, a roupa limpíssima, chorava convulsivamente. A estropiada tinha as mãos fechadas e nelas mantinha um troféu a bolsa escrotal do adversário. É o que vai se dar com o caso Copel. Tomara que a sociedade sofrida e judiada, mutilada até, mantenha o riso e o troféu em suas mãos. Caso contrário quem dará a última e debochada risada será o governo e os mutilados seremos nós.
BIZARRICE
Ao contrário do que o governo diz no anúncio sobre a Copel, fica bem claro que, ao fim de tudo isso, todos acabam perdendo
AXIOMA Curioso o raciocínio jurídico dos governistas: quando o Tribunal de Justiça suspende a eficácia de CPIs é normal; mas ao afirmar, pelo voto do desembargador Clotário Portugal, que a sessão que precedeu a votação do projeto que proibia a venda da Copel é nula de pleno direito, aí, neste caso, haveria invasão de atribuições. Esse tipo de Themis, que desejam, não é cega e sim daquelas que ''piscam''.
GLOSA Ontem foi também o dia de caça às bruxas. O governo botou perdigueiros e mastins atrás dos ex-aliados que ''entregaram'' para Requião o caixa 2 de R$ 50 milhões da campanha de Cassio Taniguchi.
Como se vê, o ódio, por seus efeitos pedagógicos, pode ser uma virtude. Talvez por isso o gênio florentino, Maquiavel, tenha ensinado que mais vale ser temido do que amado.
EPIGRAMA Ontem desistiram do leilão da Copel a Tractebel e a Vale; a Votorantin está indo pelo mesmo caminho. Tudo leva jeito de pressão pra baixar o preço, desejo várias vezes anunciado. A decisão no governo é fazer o negócio, ainda que com um só concorrente.
Será que isso aí tem ligação com o fechamento do Hospital Adauto Botelho? Afinal, há casos muito claros em que o isolamento manicomial é indispensável, embora a bem-intencionada campanha em sentido contrário.
SPRAY O PMDB vai agir para tirar de foco a tragédia de trânsito que acabou colocando mal o senador Requião, ainda mais com o depoimento do taxista Izaias Caetano Bezerra que diz ter testemunhado tudo. - Além dos desdobramentos desse caso e que ganhou maior repercussão por haver o senador se envolvido no bom propósito de atender ao sobrinho causador do acidente (ontem enquadrado pelo crime com dolo eventual) há ainda o problema da Copel. - A denúncia de Roberto Requião de que teria documentos que provariam um caixa 2 de R$ 50 milhões na campanha da reeleição de Cassio Taniguchi terá desdobramentos assim que esse assunto possa ser encaixado como tema dominante. - Membros inativos do Ministério Público, consultados, já viram essa documentação, entregue por ex-aliados, e a consideraram, em princípio, adequada. Esclareça-se que o MP não usa panos quentes com a prefeitura, tanto que manteve a denunciação sobre o furo da fila de precatórios e, mais ainda, a relativa à cooperativa de trabalho. - A ''Capital Social'' funciona a todo vapor: desmontaram a casinha de um catador de lixo em terreno da Cohab, mas o elegante Condomínio Springfield bloqueou uma rua e nada se fez. Bem como o caso da sinagoga que invadiu uma área da Praça Santos Dumont. Tudo ficou na mesma.
FOLCLORE Sobre o leilão da Copel o que se pode dizer é que os oposicionistas acham pouco o valor mínimo proposto; os concorrentes acham muito e o governo Jaime Lerner acha graça e vende de qualquer jeito.
CROMO No clarear da manhã o canto dos sabiás e, vejam só, no bip da Polícia Militar a notícia: nasceu Ana Luísa, filha de nossa repórter Luciana Pombo.
AFORÍSTICO Anteontem, tarde da noite, Aeroporto de Brasília, uma cena próxima do sonambulismo: o líder do governo, Durval Amaral, pedindo informações no balcão da Embratur para reservas em hotel. A Copel deixa todo mundo ligado e desligado ao mesmo tempo.
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