Luiz Geraldo Mazza
A hora da bravata
A novela da Copel, com o adiamento do leilão, persiste. Só lá na frente o processo de leilão da estatal de energia se exaure: ou a Justiça o impede, o que parece cada vez mais difícil, apesar das liminares determinando a suspensão, ou o negócio da China sai e a preço de banana, como se estipulara. Teremos as cenas de primitivismo, agora mais intensas, porque ficou demonstrado que, apesar da inevitabilidade das privatizações, elas em nada melhoraram os serviços públicos e muito menos reduziram a nossa dependência. Desde os leilões iniciais deu para perceber o primarismo de ativistas chutando a sambiquira de operadores da bolsa ou de executivos. Isso deve repetir-se.
Alvaro Dias saiu à frente de Lula no festival de bravatas prometendo aquilo que sabe que, em hipótese alguma, pode acontecer: a reestatização da Copel. Pois o líder maior do PT veio com uma nota oficial afirmando que reestatiza a empresa. Isso aí, nem como fator psicológico funciona para inibir os eventuais participantes do leilão, cada vez em menor número.
Como o senador Requião já prometera reestatizar o Banestado, fala-se com a maior irresponsabilidade em ruptura de contratos, criando expectativas que jamais se confirmarão com o propósito único de marcar posição eleitoral.
Apesar de volta e meia corrigido por assessores, como naquela asnice de que a fome da menina nordestina é mais importante do que exportar soja para engordar porcos no exterior, antecipada por aquela outra, ciclópica, de que se poderia combater a falta de alimentos com a gorjeta obrigatória nos restaurantes, Lula se sente cada vez mais solto para primarismos como o de apoiar, na França, as barreiras alfandegárias contra os nossos produtos agrícolas.
Ontem o presidente FHC, falando naquele país, mostrou a diferença entre ele e o candidato mais forte à sua sucessão ao combater, a um só tempo, essas barreiras e taxações bem como projeções hegemônicas como a dos Esteites no mundo, defendendo uma globalização compartilhada e não excludente.
O descompromisso com a realidade é a característica essencial dos políticos populistas. A instância do caso Copel é a Justiça exclusivamente. Cenas de rua podem servir de ''décor'', mas são inúteis. Aliás, é preciso de boa parte dos que se declaram com amor esparramado pela estatal paranaense a explicação de por que se omitiram quando da votação do projeto original, que autorizou a privatização, por esmagadora maioria em 1998. É isso que leva a crer que boa parte dos guerreiros de hoje é interessada no leilão de mais tarde, já sob outra gestão pública, possivelmente de alguém do seu grupo.
Nada disso, porém, justifica o corsarismo da forma como se fez o modelo da venda, precedido de uma escabrosa ação entre amigos, isso sem falar na dilapidação patrimonial.
BIZARRICE
São tantas as liminares que até parecem milenares
AXIOMA Aviso aos navegantes: hoje, ''Halloween'', é dia de saudar as bruxas e não de nelas sentar.
GLOSA Liminares são o ataque com antraz contra o governo Lerner, o leiloeiro. Liminares como as borboletas, segundo o mais eloquente governista, têm uma vida bela e poética, mas provisória.
EPIGRAMA E o Gerson Guelmann estaria monitorando o processo de venda da Copel com os mesmos recursos e talentos aplicados em campanhas eleitorais?
SPRAY Um mandatário tenta e consegue quebrar um flagrante de uso de drogas por parte de um filho. O impulso é humano e compreensível, mas pernicioso sob o ponto de vista cívico. - Uma autoridade sabe que a filha ao volante, e em caso típico de direção perigosa, mata uma pessoa na estrada e busca resguardá-la do flagrante. - São hipóteses de trabalho que podem ser lembradas no momento em que se discute a tal intervenção do senador Requião em favor do sobrinho. Na perspectiva da família interessada, todos os casos são compreensíveis, o que não se dá se ouvirmos naturalmente os pais das vítimas. - Quantos filhos de magistrados e de empresários viveram, como autores, quadros semelhantes e também com vítimas fatais? - Não se conhece casos de pessoas gradas, a despeito da evolução havida no conceito doutrinário e jurisprudencial sobre o crime de trânsito, que tenham sido condenadas. - O mundo do contraditório exige que do lado das vítimas haja pessoas com o caráter e a perseverança de Dona Elizabeta Zanella, que enfrentou a polícia delinquente com extrema coragem no caso do assassinato do seu filho que a corporação queria dissimular. Sem isso não há democracia e nem Estado de Direito Democrático. - Agora, quando um bacana causa a morte de um pobre ou miserável, dificilmente esse terá alguém que reclame por seus direitos. - Projeto da passarela para o Shopping Mueller já está pronto no setor de Urbanismo e do IPPUC. Não espanta. Esse pessoal não se constrange, ainda quando tudo é denunciado previamente. Essa é a sua normalidade. - Em Guaratuba, o Serviço do Patrimônio da União embargou uma obra feita exatamente em área pública, antigo arruamento, da histórica vila, afetada pelo fenômeno geológico do solapamento de 23 de setembro de 1968.
FOLCLORE No meio das liminares, um político estranhou que o juiz não aceitasse a sua ação por alegada incompetência. No anedotário forense há a história de um procurador que ouviu do magistrado que era incompetente e rapidamente, para bajulá-lo, acrescentou ''modéstia sua, Excelência!''.
CROMO E essas liminares do ipê que caem no amarelo e persistem no roxo?
AFORÍSTICO Vivemos uma época em que o vilão ganha do mocinho. E isso deve se dar certamente, lá na frente, com o leilão adiado da Copel.
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