O PT, nosso melhor partido, até por contar com tantas tendências internas, a rigor se limita a dois vetores: um reformista, majoritário, e outro que defende a ruptura. Para a agremiação, esses pólos acabam nos debates internos tentando, pela negociação de avanços e recuos, facilitar o consenso.
Não poucos cientistas políticos comparam a evolução de Lula nos processos eleitorais ao itinerário de Mitterand na França. Só a analogia já provoca arrepios, mesmo que se olhe o ex-metalúrgico, hoje político profissional como Alvaro Dias, Requião e tantos outros, sem qualquer preconceito.
Quando Lula se mostra palatável aos empresários, compreensivo com as amarras da realidade brasileira (que não se combate com uivos contra o FMI), fica inaceitável para a esquerda e quando o faz em direção a essa área do espectro também desequilibra e sofre prejuízos em sua imagem.
A esquizofrenia interna não é uma componente exclusiva do PT e se aquece a dinâmica do partido na busca da convergência pode, também, como já aconteceu com alguns estratos, provocar a saída de blocos como se dá com o PSTU, afinal com um tipo de radicalismo que o condena ao isolamento e a uma espécie de processo de rejeição.
O mais forte movimento de oposição do País, o MST, é um dos inoculadores aparentes da revolução, colocado de certa forma sob controle com as medidas de reforma agrária. Seu efeito demonstração é reformista, apesar do discurso confuso e de ações que aparentam ruptura, embora configurem uma espécie de gincana tolerada.
Num quadro desses, a dissimulação é inevitável como o temor de discutir como seria o socialismo no Brasil, reproduzindo quadros lastimáveis como os que marcaram modelos iguais aos do Leste Europeu ou ainda os de Cuba e Albânia, este mil vezes pior do que aquele. A luta pelo socialismo é legítima, desde que o partido a assuma claramente como opção ideológica, o que implica, de saída, em quebra nas regras do jogo democrático, se não for obtida por via eleitoral. No mundo globalizado a perspectiva de consegui-la pelas armas é cada vez mais distante, o que não desanima seus proponentes.
Quando Lula afirma que a soja que engorda porcos no exterior deveria servir para alimentar a criança esfomeada do Nordeste repete um clichê primário, muitas vezes empregado pelos adeptos da autarcização nacional com a volta ao mercado interno, como faziam nacionaleiros dos anos 50.
A separação entre o esforço de exportação (aqui no Paraná o agronegócio responde por 52% do total e aí o dominante é o complexo soja) e o abastecimento interno é por sua simplificação uma tolice. Basta lembrar que o setor que mais gerou empregos no Brasil, ultimamente, foi o da agricultura, cuja alavanca maior está na exportação e não naquela de subsistência.
TERROR Deputados com a chegada de cartas com pó branco simulando antraz para apavorá-los ficaram indignados. E o envelope em branco em termos de aumento dos funcionários públicos não seria também uma forma bem mais concreta de terror?
Ninguém, são da cabeça, há de tolerar trotes de mau gosto e que devem ser até punidos com extremo rigor. E os trotes que a classe política nos dá como metabolizá-los serenamente?
QUEM GANHA? A forma como a Prefeitura de Curitiba reagiu ao leilão do prédio da extinta Rede Ferroviária é estranha. O radicalismo das providências, que demoraram muito para ser adotadas, assusta e dá a impressão de que ou iam dar um golpe na cidade ou acabaram efetivamente, numa outra direção, beneficiando outros interesses.
Depois da proteção descabida ao Shopping Mueller com o desprezo a regras de recuo mimetizadas por uma falsa restauração de prédio histórico tudo está sujeito a presunções nada favoráveis ao governo municipal. Como a tal da passarela que se pretende construir sobre a Rua Mateus Leme para permitir maior acesso de clientes ao shopping facilitada pelas normas de incentivo construtivo um dos macetes da moda.
Quem ganha e quem perde com o leilão ou sua suspensão tanto aí como no caso da Copel é um mistério. Ou não seria tanto assim?
A PONTE Há homens-ponte, aqueles que ligam regiões distintas e às vezes divididas por fatores culturais como se dá entre o norte e o sul paranaenses.
Um deles, sem dúvida, é aquele que se foi, o Nassib Jabur. Veio ao Sul, sem nunca ter deixado o Norte (Londrina, Porecatu), foi um fator de ligação já no primeiro governo ''pé-vermelho'', o de Paulo Pimentel, tanto que não só se revelou um assessor político de peso como um assistente empresarial. Muitos o viam como um Aníbal Khury diferenciado, pretensão que nunca teve.
O consulado pé-vermelho e dos ''jacus'' do Curitiba Palace Hotel, que há muito dele se distanciara, sofre com sua ausência definitiva.
FANTASIA Na greve dos jornalistas de 1963 (cuja proposta encaminhei em discurso na assembléia unitária com os gráficos) houve uma lenda de que o Valmor Marcelino teria aparecido com uma bandeira vermelha (obviamente a da URSS) no piquete à frente do ''Diário do Paraná'' e que eu lhe teria dito ''essa não, a antiga!''.
Essa bobagem, que mal se sustenta como anedota, acabou motivo de pergunta no IPM um ano depois, assunto bem ao gosto dos militares, aquele tempo ainda sem dominar os macetes da persuasão psicológica e pela força que viriam de 68 em diante até pelo desencadeamento da luta armada.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

mockup