Luiz Geraldo Mazza
Os lances da privatização da Copel poderiam, se devidamente explorados, ser transformados numa farsa, padrão Comédia de Arte. Nada mais ridículo do que as declarações de amor à estatal, inclusive daqueles - e não foram poucos - que de certa forma comprometeram seu patrimônio, vendendo suas ações e criando as pré-condições para que Lerner consumasse a prodigalidade.
De tudo o que acontece nada é mais ridículo e doentio do que a ansiedade do governo estadual em desfazer-se da estatal de qualquer jeito, como se já não bastasse o arrombamento havido no Banestado na Leasing e na Corretora, esta com o chuncho dos títulos estaduais com os quais muita figurinha carimbada ganhou dinheiro e obrigando o Executivo a comprometer ações da Copel junto ao Banco Itaú, um sócio que acertou na Loto acumulada.
A oposição só acordou para a gravidade do problema bem depois de permitir a aprovação do projeto autorizatório por larga maioria de votos. Deixou que se aproximasse o período decisório, quanto ao leilão, para então explorar o tema com finalidade claramente eleitoral. Está longe, portanto, de posar como vestal e seu interesse como o do governo se ajustam mais na figura da bacante, no pecado e, em momento algum, numa hipotética virtude.
Essas contradições ficam nítidas não apenas no fato de Giovani Gionédis ter ingressado com ação em juízo, ele que participou de muitos dos atos claros de comprometimento com a privatização, incluindo o relativo ao ônus ao patrimônio da Copel para assegurar o saneamento do Banestado. O vereador Mauro Moraes, em entrevista à ''Gazeta Mercantil'' (logo ele que é signatário da ação popular do seu correligionário Gionédis) declarou que a privatização seria inevitável e que o recurso visava apenas rendimento político e para evitar que o governo Jaime Lerner se nutrisse com o resultado do leilão.
Vai acabar, apesar do aquecimento da temperatura, o estoque de sorvetes de tanta gente que se empenha no ofício de espatifá-lo na testa, tanto governo e oposição como o respeitável público manipulado pelos dois lados. Até eu mesmo por ainda tentar levar a sério uma farsa e me dispor a discuti-la. Dá-lhe, Kibon. Refresquemos a testa.
BIZARRICE
O esquema de desmanche da Copel, via contratos como os feitos com a Tradener e a Escoelectric, é uma ação entre amigos. Já o precedente havido com o Banestado (Leasing e Corretora) seria diferente ou ambos configurariam um caso de polícia e de Ministério Público?
AXIOMA Jingle bell, Jingle bell, vou vender a Copel// Quem dá mais, quem dá mais// não esquecerei jamais!// (Jaime Lerner, de Papai Noel, no meio da neve, com o trenó puxado por lobos esfaimados babando e alguns veadinhos muito agitados).
GLOSA Qualquer candidatura no situacionismo que não seja a de Cassio Taniguchi será uma piada. É a única possível para enfrentar a oposição, mas sem qualquer garantia de vitória, apenas de disputa acirrada.
EPIGRAMA A rapidez com que Hermas Brandão, presidente da Assembléia, deu a agropecuaristas a lei que os favorece sob o ponto de vista fiscal, é cobrada agora por funcionários do Legislativo na reivindicação do Plano de Cargos e Salários. Só que aí ele vai enrolar que nem o caso da Copel fingindo que era contra a privatização e na prática agindo ao contrário. Permitiu que estudantes invadissem a Casa e agora só falta bloquear a entrada do servidor que defende a melhora de condição profissional.
SPRAY A coisa está mais misteriosa do que a origem da correspondência ao gabinete de Alvaro Dias com pó branco ontem em Brasília, pois poucos sabiam da licitação, já que apenas divulgada na sistemática oficial. - O Brasil ao correr do martelo: amanhã, no Hotel Promenade, sai o leilão da área da antiga Rede Ferroviária com 11 mil m2 na esquina da João Negrão com a Sete de Setembro, em Curitiba, ao preço mínimo de R$ 13 milhões. - O potencial construtivo é de 90 mil m2, conforme cálculos da prefeitura. Bem maior do que o Shopping Mueller. - Como no caso da Copel, os ex-funcionários da RFF estranham a avaliação e a encaram como baixa demais. - Por falar em Copel, a bomba maior está num dos argumentos de Gionédis contra o leilão: todos os dividendos do exercício, imaginem a moleza, ficam para o grupo ganhador. - Repete-se o mau negócio do Banestado, em que o Itaú levou tudo de graça com os ganhos fiscais (praticamente o lance), levando-se em conta que pode haver um lucro superior a R$ 400 milhões como no ano passado, mais do que o total do compromisso de ações da Copel com o sucessor do Banestado. - Além de trapalhões, como se vê, perdulários. - Câmara Criminal do Tribunal de Justiça acolheu denúncia contra José Mário Morim, prefeito de Cafezal do Sul por sonegação fiscal. Foi ratificada também a concessão de habeas-corpus, pela unanimidade da Câmara, a Kakunen Kyosen, advogado envolvido nas patologias do ex-prefeito Belinati em Londrina.
FOLCLORE Se Lafite, o corsário, visse hoje o que se dá com o leilão das estatais, com as vantagens embutidas nesse festival de concessões, ficaria com um terrível complexo de inferioridade, achando-se um ingênuo.
CROMO ''Solta a flor na correnteza.// Longe, alguém desconhecido// faz um gesto distraído// e colhe a flor de surpresa.'' (Helena Kolody, a que nos dá flores e estrelas e nunca de surpresa)
AFORÍSTICO Que tal o Inri Cristo querendo chicotear os vendilhões diante dos palácios do Centro Cívico?
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