Luiz Geraldo Mazza
Quem disser que o leilão do dia 31, data das bruxas, ''Halloween Party'', relativo à Copel, sai naquela data, já não incide sobre o óbvio porque são cada vez maiores as dúvidas de que isso aconteça. Se já não bastasse a refrega de caráter judicial - as dezenas de ações tramitando na Justiça e pedindo que não saia a privatização - temos agora a dúvida dos três grupos que se inscreveram e que pretendem, nada mais nada menos, o adiamento do processo.
O nervosismo que tomava conta da oposição, acumulando seguidas derrotas no ''front'' político e judicial, transferiu-se para o governo; e a continuar nesse diapasão, haverá crises de asma dos mais sujeitos ao fenômeno, dentre eles o próprio governador. Que, bem-humorado, já fez piada com a síndrome de infância ao mostrar a sua diferença, desde os tempos do PDT, com o engenheiro Leonel Brizola: ''Ele é um carismático e eu apenas um cara asmático''.
Empresários querem mais prazo por motivações bem concretas e sem qualquer fundo místico por causa da Festa das Bruxas ou pela véspera do Dia de Todos os Santos e antevéspera de Finados. Afinal, um coquetel obscuro, ''dark'', de tantas e aterradoras coincidências pelo menos na perspectiva dos ansiosos membros do governo leiloeiro. Como no jogo de ''rugby'', esse pedido de tempo permite que se formem as ''rodinhas'' para acertar as futuras jogadas e não está inviabilizada a possibilidade de montarem um consórcio das três para arrematar a melhor energética do país a preço de banana, isso é o mínimo.
Enquanto havia isso, o Fórum Contra a Venda da Copel mantinha a bateria de fogo jurídico na intensidade de um lança-chamas e cuidava também de acionar um esquema de boatos e de estimulação psicossocial para esquentar a moringa dos governantes e aliados situacionistas. Há, portanto, indefinição, e se qualquer dos dois lados mostrar pessoas sorrindo urge prestar atenção para ver se não se trata de um caso de sequela de derrame cerebral.
E para tornar o clima ainda mais abrasivo, Giovani Gionédis, ex-secretário da Fazenda, hoje rompido com Lerner, entrou com bem fundamentada ação, padrão ''chumbo perdigoto'', alcançando vários aspectos de irregularidades, nos atos preparatórios da privatização da Copel, junto à Justiça Federal. A ação do ex-secretário pode abrir um caso parecido com aquele de Pedro contra o próprio irmão, Fernando Collor, e que o derrubou da Presidência. No Brasil, só quando os grandes se desentendem é que o povo é informado e leva a melhor.
AXIOMA
Se o terror for punido, pode parodiar o slogan do PMDB de 1985: ''Voltar ao antraz nunca mais!''
BIZARRICE Há uma anedota mórbida, mundo-cão, de um sujeito que conversa com outro enquanto passa ao lado uma jovem sem o braço direito e com os dedos da mão esquerda amputados e diz-lhe baixinho: ''Estou comendo a menininha''. De fato comia com a boca e isso lembra a Copel que é a menininha que foi mutilada pelos governos de tanto ser comida em prestações. Hoje transformada em mulher-tronco, vai ter encerrado o ciclo de canibalismo.
GLOSA Alvaro Dias, furioso contra a venda da Copel, esquece que ajudou muito na privatização da Telepar e pediu a liquidação do Badep. Seu apego no momento ao patrimonialismo soa postiço.
EPIGRAMA Eleições em entidades da Polícia Militar privilegiam oposicionistas: a do Clube de Oficiais foi vencida pelo tenente-coronel Nemésio Xavier, ligado a Requião, e a da Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares Ativos, Inativos e Pensionistas (AMAI) pelo coronel Elizeu Furquim.
SPRAY São Paulo acusa o Paraná de haver dado uma de ''João sem braço'' ao aprovar a Lei Hermas Brandão, que concede benefícios para carnes e lácteos, que tinham sido suspensos pela Justiça. - Feita de afogadilho, sob pressão da claque interessada, a lei acabou constrangendo o próprio governador, que poderia vetá-la. Muita festa no momento, euforia, e agora a lei corre o risco de perder eficácia. Parecida com a de São Paulo, difere num ponto: a de lá passou pelo crivo do Confaz, e a daqui surgiu sem consulta. - A empresa encarregada de recuperar a nafta do navio Norma tem contrato de risco com a Petrobras, daí a demora dos procedimentos, adiados para hoje. Se ela perdesse a carga nada receberia, razão dos cuidados extremos. - Há um questionamento sobre o acidente na Baía de Paranaguá: o sistema de tráfego não deveria ter permitido que duas embarcações em sentido contrário estivessem ao mesmo tempo numa área estreitíssima de operação. - Miguel Sanches Neto deixa a Imprensa Oficial até o fim do ano. Uma perda enorme, pois a sua gestão só teve a superá-la a de João de Deus Freitas Neto. Na parte editorial foi excepcional, especialmente a coleção ''Um Brasil Diferente''. - Elogiável a criação da Central de Polícia que provocará a ação sinérgica das polícias Civil, Militar e Guarda Municipal. Isso é bem mais eficaz do que saídas psicológicas como os totens.
FOLCLORE No programa do deputado Ricardo Chab, na Rádio Cidade, ontem se fez uma dessas pesquisas sem qualquer critério e deu o senador Roberto Requião para o governo com 86%. Chab é novato no PMDB e quando for veterano alavanca ainda mais o seu líder, ascendendo-o aos céus.
CROMO Vi ontem uma jovem enrubescer, o que só acontecia nos romances de José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Era uma rosa rubra no rosto juvenil e bonito: flor rima com pudor.
AFORÍSTICO Propensos a crises vasculares do governo e da oposição até 31 deste mês devem lotar as UTIs das clínicas cardiológicas.
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